A equipa do Gil Vicente está na II Divisão e é candidata a subir à Liga BPI. Quais as expectativas para esta época?
O Gil, independentemente de qualquer projeto, é sempre um clube grande e um nome grande, portanto, tem de ser sempre assumido como alguém importante na II Divisão. Fizemos uma reformulação total da estrutura e isso foi o ponto principal da nova época, reformular o clube da base até ao topo.
Não nos preocupámos só em mudar a equipa sénior, preocupámo-nos em mudar e reestruturar a formação inteira. Antigamente, a formação treinava num espaço à parte, a equipa sénior treinava num espaço diferente. Este ano, está tudo concentrado aqui. O coordenador Jorge está integrado na equipa técnica da equipa sénior e coordena toda a formação, ou seja, é um trabalho de ligação entre toda a gente.
Houve um aumento grande do número de jogadoras na base, um aumento do número de equipas também. Sub-13, Sub-15, Sub-17 e Sub-19, à volta de 75, 80 atletas. Portanto, foi reestruturar tudo, mesmo a equipa sénior teve uma reestruturação total, grande parte do plantel saiu, a grande maioria das atletas que estão cá são novas. Estamos a reconstruir tudo.
Mas, sim, no fim, a ideia é sempre pensar no clube, na sua dimensão e associá-lo sempre como um candidato a ser alguém importante na II Divisão e, quem sabe, na 1ª.
A II Divisão está mais competitiva este ano? Tem essa perceção?
Sim, houve um aumento da competitividade. A Liga BPI passou para 10 equipas, significa que duas equipas da Liga BPI baixaram para a II Divisão. Curiosamente, as duas equipas caíram na zona Norte, o que tornou a zona Norte bastante mais difícil. Acho que a Norte houve um investimento grande nas equipas de II Divisão, acho que a Sul não aconteceu o mesmo. Este ano, há um desnível entre a Série Norte e a Série Sul.
Naturalmente com a descida de duas equipas e com a perda de 50 lugares ou vagas na Liga BPI para jogadoras – estas jogadoras foram forçadas a descer de divisão – a II Divisão aumentou a competitividade. É uma escada: o que não interessava à Liga BPI passou para a II, aquilo que antigamente eram jogadoras que tinham espaço em equipas a lutar pelo título na II Divisão, se calhar passaram para as equipas inferiores. Ao melhorar muito aquilo que eram as equipas mais baixas da II Divisão, tornou a II Divisão muito mais competitiva.
Reestruturar a equipa sénior, com novas jogadoras, foi um grande desafio? Foi começar com uma equipa quase de raiz?
Sim, principalmente integrar toda a gente num projeto totalmente diferente. Recebemos jogadoras de quase todos os lados, jogadoras da Liga BPI, jogadoras da II Divisão, jogadoras do estrangeiro. Integrar toda a gente neste projeto é desafiante, porque todas vieram de princípios e hábitos de trabalho diferentes, estão a aprender um novo hábito, um novo conceito, uma nova forma de estar – mais certa ou mais errada, isso vale o que vale, todas estão certas, mas aqui trabalham da forma que nós acreditamos e daquilo que nós queremos. Temos esta 1ª fase para trabalhar e para conseguir atingir os objetivos.
Tentamos controlar o máximo possível de informação, desde o peso diário, controlo de cargas, quanto é que correm, quanto é que não correm, a que intensidades, velocidades máximas
José Airosa
Como é o seu método de trabalho? O que é que privilegia nos treinos?
Um pouco de tudo. Organizamos a semana com um pouco de tudo, mas a intensidade e a forma de trabalhar são muito rigorosas. Sabemos bem o que queremos atingir durante a semana, procuramos sempre atingir todos os valores, quer metas físicas, quer metas técnicas ou táticas, procuramos passar por tudo, tentamos controlar o máximo possível de informação, desde o peso diário, controlo de cargas, quanto é que correm, quanto é que não correm, a que intensidades, velocidades máximas. Ou seja, tudo o que elas fazem aqui é controlado e supervisionado para tentarmos ter o máximo de informação possível, para tentar usar isso para o crescimento das jogadoras.
O treino está na sua cabeça ou tem um caderno de notas?
O treino está todo preparado, mas sei-o todo de cabeça. Nunca preciso estar com o plano de treino comigo, sei as equipas todas, os grupos todos, sei tudo o que vai acontecer no treino na cabeça. Embora esteja tudo em papel, tudo documentado, em campo não preciso desse apoio para fazer o treino.
Tem algum amuleto, algum ritual?
Não. Sou muito pouco supersticioso e acredito muito pouco no divino, por assim dizer. Acho que é tudo reflexo do trabalho que fazemos diariamente. Acho que é mesmo o trabalho e a disciplina que nos tornam diferentes, é muito por aí. Sou muito mais frio na forma de analisar e nunca me refugio nesse tipo de superstições.
Sou muito pouco supersticioso e acredito muito pouco no divino, por assim dizer. Acho que é tudo reflexo do trabalho que fazemos diariamente
Que mensagens passa na palestra? A motivação é o maior triunfo?
Acho que não, acho que é, mais uma vez, a disciplina tática, o rigor, aquilo que queremos, aquilo que pensamos, aquilo que preparamos durante a semana. A palestra é muito mais preparação de jogo do que propriamente parte motivacional. Claro que há sempre contextos diferentes e jogos diferentes, formas diferentes de se preparar a jogos.
Já fiz de tudo, já fiz palestras só motivacionais, já fiz palestras só táticas. Depende dos momentos. A palestra motivacional é capaz de funcionar em espaços muito específicos, se estamos sempre a fazer só motivacional, acaba por não ter significado nenhum e é só mais um dia. Mas, sim, já utilizei palestras apenas motivacionais e de todos os tipos. Funcionou umas vezes, outras vezes não.

Quais as qualidades que uma boa jogadora deve ter?
É uma pergunta difícil. Há muito boas jogadoras com qualidades totalmente diferentes para a mesma posição. Ou seja, nem por posição consigo definir o que é uma boa qualidade de uma jogadora. Acho que são mais comportamentais do que propriamente técnicas.
O perfil comportamental e o perfil psicológico da jogadora têm cada vez mais influência naquilo que é o rendimento. A forma como trabalham, a predisposição para o trabalho e, acima de tudo, a disciplina, no cumprimento de refeições, de descanso, de todo o trabalho que é off e que ninguém vê. É, sem dúvida, o trabalho mais importante porque elas precisam de muito trabalho de ginásio, de muito rigor na forma como comem, de muito cuidado com as horas que descansam. Tudo isto são privações que elas têm de ter e que, muitas vezes, são difíceis. E é esta disciplina e este rigor que, no fim, acabam por as tornar diferentes.
Cada vez mais temos qualidade, porque começam cada vez mais novas, ou seja, já chegam a estes patamares com muitas competências técnicas. Depois ainda há essa dificuldade do rigor e da disciplina extracampo, que é o que faz a grande diferença. A ferramenta de trabalho é o corpo e quando elas percebem que é o corpo que faz a grande diferença, isso torna tudo muito diferente.
Talento só não basta?
Não, cada vez menos, cada vez menos. Cada vez mais, as jogadoras estão num nível muito alto. E não falo só no feminino, é igual nas duas partes. O futebol, no geral, deixou de ser considerado talento e está muito virado para a parte da performance. Mais rápidos, mais fortes, mais agressivos, mais intensos. Vemos um perfil totalmente diferente daquilo que víamos há 50 anos no futebol e a parte física é cada vez mais importante. Por isso, é que toda a gente anda atrás de perfis físicos, muitas vezes, em vez do talento. Obviamente que toda a gente quer jogadoras com qualidade, obviamente que toda a gente quer jogadoras com talento.
O futebol, no geral, deixou de ser considerado talento e está muito virado para a parte da performance
O futebol feminino tem sido valorizado?
Acho que sim. Temos visto um crescimento muito grande. Muitas vezes, desassociado de aquilo que deve ser o crescimento. Ou seja, estamos a tentar potenciar tanto que nos estamos a esquecer de algumas bases que estão a ficar para trás. Depois temos de voltar atrás para reestruturar e repensar outra vez. Estamos a tentar forçar coisas que não são sustentáveis, nem que são possíveis. Mas é bom haver esse investimento. Também é bom haver esses erros. Porque esses erros fazem parte do projeto e fazem parte do crescer. Só se cresce com os erros e isso é o mais importante. Errar, mas na tentativa de puxar e de projetar o melhor e querer mais e adicionar mais.
O que é que podia ser melhor no futebol feminino, em termos de condições, de apoios? Se mandasse, o que é que podia ser melhor?
Poderia ser muita coisa, mas também temos de ser realistas. É um projeto que tem de ser pensado passo a passo. Há muita coisa que obviamente pode ser feita melhor. Mas se olharmos para trás, para há três anos, hoje é muito melhor do que era. Portanto, as pessoas estão a tentar fazer o futebol feminino crescer e acho que com sucesso.
Mais uma vez voltamos ao mesmo, não podemos andar com metas irrealistas, temos de ser conscientes. Há cada vez mais exigências sobre o futebol feminino. Tem crescido muito, vai continuar a crescer naturalmente, porque cada vez há mais pessoas competentes e capacitadas para o fazer crescer. E também não estarmos constantemente nessa pressão e dar tempo às coisas de acontecer. Estarmos sempre a exigir é bom, mas também temos de deixar as coisas acontecer de forma natural e não estar sempre a forçar, não estar sempre a pedir metas irrealistas, porque toda a gente tem de se reorganizar. E isto inclui as estruturas, porque há um investimento grande, há dinheiro, há partes financeiras, há partes de toda uma estrutura que têm de ser avaliadas e não podemos estar só a exigir.
Obviamente que eu quero as melhores jogadoras, eu quero maior orçamento, mas nem sempre isso é possível, nem sempre isso é realista. Ou seja, não faz sentido, eu já estive noutros contextos em que o orçamento é este, mas depois não cumpres. Não vale a pena ter um orçamento que não és capaz de suportar. Toda a gente tem de ser consciente daquilo que está a fazer. Claro que toda a gente quer o melhor, mas temos de ser realistas porque, no fim, há pessoas, há famílias por trás disto tudo. Há jogadoras que vêm de todas as partes do mundo e se falhamos com essas pessoas, se o clube falha também naquilo que é o essencial, elas estão abandonadas num projeto em que não confiam. E isso torna tudo muito mais complicado. Acho que essa relação de confiança é muito importante, mas para essa relação existir, os clubes também têm de ser conscientes daquilo que estão a fazer.
José, o que é, para si. um bom jogo?
É uma excelente pergunta. É um jogo com golos, mas também pode ser um jogo sem golos. Para o adepto, é um jogo com muitos golos. Para os treinadores, é outras coisas. É o rigor tático, é a disciplina tática, é compreender se o que se faz durante a semana está a acontecer ao fim de semana, se não está a acontecer, o que é que aconteceu, porque é que falhou, porque é que não falhou. Ou seja, preocupámo-nos muito com outras coisas. Obviamente que o resultado final tem impacto e consequências no nosso dia a dia.
Um bom jogo de futebol é um jogo com golos. Toda a gente que vem ver um jogo de futebol espera ver golos, espera ver emoção do primeiro ao último minuto. Se o futebol move toda esta gente, é porque desperta muitas emoções e as maiores emoções são despertadas pelos golos. É por aí.



