Como vê e analisa o crescimento do futebol feminino em Portugal?
Houve um período em que tínhamos um maior número de jogadoras do escalão sénior do que dos escalões de formação. Quando cheguei à Federação Portuguesa de Futebol, a pirâmide estava completamente invertida. Tínhamos cerca de mil jogadoras e 600 e tal eram jogadoras do escalão sénior. Conseguimos alterar isso com duas medidas administrativas, ou seja, o futebol poder ser misto até aos sub-13, inclusive, e dos sub-13, que eram os escalões infantis para cima, só haver dois escalões: o escalão júnior, que englobava iniciadas, juvenis e primeiro ano de júnior; e o escalão sénior, que englobava juniores de segundo ano, comparando com a nomenclatura masculina. Dos sub-18 para cima já seriam seniores. Estamos a falar do início da década de 2000.
Depois, naturalmente, houve vários anos em que o número de jogadoras subia, descia, subia, descia, não chegava, muitas vezes, às 2000. Até que a Federação, com um segundo projeto, elaborado pela Escola Superior de Desporto de Rio Maior, conseguiu que o número de praticantes da formação fosse aumentando exponencialmente.
Neste momento, diria que a pirâmide do número de praticantes está de acordo com aquilo que são os parâmetros normais. Ou seja, temos uma base muito mais alargada e o topo da pirâmide com o menor número de praticantes, o que me parece que é o mais correto.
Tem sido um crescimento sustentado, robusto?
Se é sustentado? Há vários critérios que podem determinar isso. Aquilo que eu sinto é que com esse boom dessa altura, houve muitas fases do crescimento da modalidade que não aconteceram da forma que normalmente deveriam ocorrer. Vou dar alguns exemplos de coisas que nem sempre correram como deviam. Em primeiro lugar, a formação dos treinadores. Em muitas equipas da formação feminina, numa fase inicial, os treinadores não tinham sequer a habilitação mínima para exercer a função. Eram autênticos curiosos, muitas vezes, com grande vontade de tirarem o seu curso e exercerem a função. A partir de uma determinada altura, os clubes começaram a ser penalizados com multas porque não tinham treinador na ficha de jogo. Foi uma situação que, na minha perspetiva, numa fase inicial, não correu muito bem.
A partir de uma determinada altura, os clubes começaram a ser penalizados com multas porque não tinham treinador na ficha de jogo
Nuno Cristóvão
Não ter treinadores com habilitação era uma situação um pouco amadora, não era?
Também penso que tinha um pouco a ver com a pouca adesão de alguns treinadores do género masculino ao futebol das mulheres e das raparigas. Penso até que alguma mudança do comportamento de alguns treinadores teve a ver com algum sucesso que as seleções femininas tiveram e até com alguma visibilidade que a Liga BPI passou a ter em termos televisivos. Acho que uma coisa não está separada da outra.
Outro exemplo: as condições nos próprios clubes. Falo dos horários de treino, das estruturas de apoio, das questões do ponto de vista médico, haver ou não haver fisioterapeuta ou enfermeiro ou massagista habilitados para exercer as funções. As coisas foram andando. Às vezes, penso que foram dados passos maiores do que a perna, mas também penso que isso, de certa forma, faz parte do processo de crescimento.
Neste momento, aquilo que sinto é que há algumas equipas na Liga BPI e algumas na 2.ª Divisão que têm estruturas de acordo com aquilo que é a competição máxima no futebol das mulheres e das raparigas. E há muitos outros clubes, que acho que ainda são a maioria, que ainda não conseguiram caminhar para lá.
Essa será, provavelmente, uma das maiores fragilidades deste crescimento do futebol feminino, esta disparidade de condições?
Não tenho nenhuma dúvida sobre isso. Vou dar um exemplo concreto. Fui abordado pelo clube da terra onde vivo, o Ericeirense, procuravam alguém que pudesse treinar um determinado escalão do feminino. Quando perguntei pelos horários de treino, são horários que para uma equipa de formação não tem nenhum sentido, treinar a horas que não são aceitáveis, na minha perspetiva. Não digo que sejam os últimos horários, porque ainda havia equipas que treinavam depois disso, mas para quem no dia seguinte tem de estar na escola às oito e meia da manhã, treinar até às dez e um quarto, dez e meia da noite, não me parece que seja muito aceitável. Ou seja, as estruturas físicas e as estruturas humanas de apoio ainda deixam um bocado a desejar relativamente àquilo que seria o aceitável.
Podemos dizer que o futebol feminino, jogado por raparigas e mulheres, é o parente pobre da modalidade?
Vou dizer uma coisa que pode ser polémica, mas é aquilo que sinto. Há muitos clubes que têm equipas femininas na tentativa e na perspetiva de poderem ir buscar apoios que de outra forma não conseguem. E isto não demonstra uma real vontade de desenvolver a modalidade na área feminina, mostra um conjunto de outras coisas. Eu sei que isto é polémico, há quem ache que eu não devia dizer isto, mas é aquilo que sinto em muitos locais do país. E não estou a falar só das zonas de grande densidade populacional, nas áreas limítrofes de Lisboa, do Porto, estou a pensar no país inteiro. E isso não ajuda.
Há todo um conjunto de coisas que é fundamental fazer-se no sentido de apoiar ainda mais os clubes, para que possam ter estruturas que podem não ser exclusivas da área feminina, mas às quais a área feminina tem de ter acesso. E não pode ser o acesso depois do masculino, tem de ser simultaneamente.
Gosto de falar de coisas concretas. Quando estive no Torreense, o Torreense tinha na área feminina uma estrutura específica para o futebol das mulheres e das raparigas. Quando digo estrutura, tinha pessoas, tinha fisioterapeutas, tinha enfermeiros, e o médico que existia era o médico do clube, e o acesso era, quando havia necessidade, imediato. E isso faz toda a diferença.
Há muitos clubes que têm equipas femininas na tentativa e na perspetiva de poderem ir buscar apoios que de outra forma não conseguem. E isto não demonstra uma real vontade de desenvolver a modalidade na área feminina
As lesões são um assunto que não sai da ordem do dia. As lesões das mulheres e das raparigas no futebol deviam ser bem analisadas e estudadas?
Devem ser porque o corpo feminino não é igual ao masculino. Há questões, por exemplo, ao nível da anca que têm depois implicações com a questão dos joelhos e isso depois pode ter implicações com o número de lesões que costumam acontecer ao nível da articulação do joelho – costuma dizer-se que é a situação mais débil no que diz respeito ao corpo feminino para a competição.
Também acredito que o maior número de lesões que ainda existem nas jogadoras de futebol, e às vezes noutras modalidades desportivas, tem que ver com o passado, ou seja, com o facto de a mulher, numa fase inicial da sua atividade desportiva, não ter a mesma atenção que já é dada aos rapazes. Penso que algumas coisas até se conseguiram ganhar quando as equipas podiam ser mistas, ali havia alguém que pudesse tratar dos jogadores e das jogadoras ao mesmo tempo.
Essa é uma área de estudo que está sempre em aberto e que poderia perfeitamente ter um maior número de estudos científicos, no sentido de dar a informação a quem está no terreno, de forma que haja maior qualidade na prevenção. Ao haver maior qualidade na prevenção vai haver menos lesões no futuro, independentemente de continuarem a existir sempre porque o corpo feminino, não só por causa da questão da menstruação, mas também por aquilo que acabei de dizer, não é igual ao masculino. Há situações que deveriam ser mais acauteladas para própria defesa da jogadora.
Há problemas, há complicações, muitas angústias de gerir uma equipa de futebol feminino num meio ainda pouco comprometido com a questão da profissionalização. Como é que se gere uma equipa num clube nessas condições, nas divisões mais baixas?
Posso falar pela minha experiência, tanto treinei equipas de topo, como treinei equipas de menor dimensão. Há aqui algumas questões que, para mim, são iguais, seja qual for o patamar: o nível de exigência, o nível da responsabilidade. Do ponto de vista do treinador, essas questões são inegociáveis, na minha perspetiva. Eu costumava dizer às jogadoras do 1.º de Dezembro, que foi a segunda equipa feminina que treinei, portanto já com alguns anos de treinador, que ninguém era obrigado a estar ali. E de quem está ali, eu tenho o direito e o dever de exigir o máximo porque eu também dou o máximo.
Agora temos de ter a noção de que uma coisa são as jogadoras profissionais que fazem daquilo a sua vida e que têm uma responsabilidade superior a quem é amador que, no fim do seu dia de trabalho ou do seu dia de estudo, ainda vai treinar, muitas vezes com horários muito pouco aceitáveis.
Mas o que é verdade é que em todas as equipas que treinei, que não eram profissionais, e foram a maior parte, inclusivamente algumas dessas equipas com jogadoras que faziam parte das convocatórias das seleções nacionais, havia sempre jogadoras que tinham exatamente a mesma perspetiva que eu. Muitas vezes capitãs de equipa, jogadoras mais antigas, mais experientes, e que passavam essa mensagem para o grupo. E isto são coisas que o próprio grupo vai filtrando e as próprias jogadoras, quando sentem que não têm andamento para estar naquele tipo de grupo, acabam elas próprias por se afastar. Aconteceu-me várias vezes.
Da parte do treinador, há que ter sempre o bom senso – aqui o bom senso é absolutamente fundamental – de perceber quando as coisas não funcionam da forma como ele quer, quando são questões de responsabilidade, de entrega, de conseguir perceber o que é que está a acontecer, e procurar ver o que é que ele, o treinador, pode fazer no sentido de a jogadora não desistir, da jogadora não se afastar. Isto porquê? Porque não era fácil arranjar jogadoras.
Dou este exemplo. A primeira equipa feminina que treinei foi o Carcavelos e fiz a época toda com 14 jogadoras, só tinha uma guarda-redes. No decorrer da época, foram aparecendo outras raparigas sem nenhuma experiência desportiva do ponto de vista do futebol e algumas delas nunca tinham sequer praticado nenhuma modalidade desportiva de uma forma mais intensa. Acabei a época com 17, salvo erro.
Ora bem, se o treinador quer ter algum sucesso – e o sucesso pode ser muita coisa, o sucesso não é só ficar em primeiro -, também é importante ele perceber, do ponto de vista da jogadora, o que é que a jogadora quer, o que é que ela espera, ela vai à procura de quê, qual é o objetivo dela. Muitas vezes, eu dizia que havia jogadoras que iam para o futebol porque queriam fazer parte de um grupo. Era uma forma de se sentirem úteis em termos da sua vida, para além daquilo que era a sua vida pessoal, da sua vida escolar, etc. O estar integrado num grupo foi uma das questões que eu senti muito na fase inicial da minha carreira de treinador.
Estive dois anos no Carcavelos e depois entendi que se continuasse no futebol das mulheres e das raparigas, não ia crescer como treinador. E decidi sair do futebol feminino. Depois estive muitos anos, 13 ou 14, até ser convidado para ir para a Federação. Senti que para crescer como treinador tinha de mudar.
Portanto, além da exigência que o treinador deve colocar, exigência a todos os níveis, no cumprimento dos horários, na responsabilidade das tarefas que lhes são atribuídas, seja dentro como fora do campo, também é fundamental perceber quais são os principais objetivos de quem está à sua frente. Uma coisa é termos 14 jogadoras, outra coisa é termos 24. A forma de liderar não pode ser a mesma.

Os treinadores e as treinadoras podem ser muito bons, mas se não houver massa humana para treinar, nenhum vai ter sucesso a um alto nível
Aproxima-se o apuramento para o Mundial, notam-se algumas mexidas por parte do selecionador. Quais são as suas expectativas para a prestação nos confrontos que se avizinham?
A seleção vai estar num processo muito semelhante àquele que ocorreu quando foi apurado pela primeira vez para o Campeonato do Mundo. Portugal vem de uma prestação em que tem andado no Grupo A, depois passa para o Grupo B, depois volta ao Grupo A, e agora voltou outra vez ao Grupo B. E, portanto, vai estar integrada no Grupo B, onde me parece que o apuramento não vai ser tão fácil quanto foi o último.
Porquê?
Porque temos a Finlândia, pelo menos a Finlândia no nosso grupo, que foi até a seleção que deixámos para trás quando conseguimos depois passar aos passos seguintes no apuramento para o Mundial, que decorreu na Nova Zelândia e na Austrália. Acho que vamos encontrar maiores dificuldades do que aquelas que encontrámos na última fase de qualificação, onde Portugal passeou, claramente. Teve cinco vitórias e um empate, e o empate foi o último jogo, do ponto de vista da qualidade do jogo, a coisa não correu bem, mas onde já tudo estava resolvido. Empatámos 0-0 e que me recorde não houve uma situação de perigo para a nossa baliza e podíamos ter resolvido o jogo de outra forma.
Portanto, esse é o primeiro passo. Portugal tem, obrigatoriamente, de tentar ficar em primeiro porque isso depois vai ter influência nos passos seguintes. Ou seja, não é a mesma coisa se Portugal ficar em primeiro ou não. Para já, se não ficar em primeiro, não volta ao grupo A. Ficando em primeiro, vai ter outro tipo de oportunidades nos play-offs seguintes.
Quero acreditar que vamos discutir o apuramento para o Campeonato do Mundo. Acho que estamos em condições de discutir esse apuramento.
Como vê a chamada de jovens jogadoras à seleção?
De uma forma natural. Promover as jogadoras das seleções mais jovens à seleção principal é o caminho que se costuma percorrer. Se essas jovens têm ou não têm condições neste momento de ser titulares indiscutíveis ou de jogar a um altíssimo nível, isso também vai depender muito delas, do trabalho que fizerem, em primeiro lugar, nos clubes, e depois das vezes em que forem chamadas à seleção nacional.
Acho isso absolutamente natural. Se elas, neste momento, estão ou não em condições, muitas vezes só experimentando, só ensaiando, só colocando as jogadoras nesse patamar de competição, e isso dificilmente se consegue fazer com a competição a sério, ou seja, aquela que dá pontos e que dá apuramentos. Mas, hoje em dia, tirando estes últimos jogos particulares que a seleção teve, não tem mais jogos particulares, o resto é tudo competição a doer, como costumamos dizer.
A estrutura técnica nacional tem de estar preparada para nos contextos onde essas jogadoras estiverem envolvidas, ou seja, a jogar nos seus clubes, verificar se elas têm ou não têm condições de discutir a titularidade ou a possibilidade de jogarem com regularidade na seleção A com as jogadoras que já têm outro tipo de experiência e que já deram outras provas até ao momento.
Agora, a renovação é uma questão que se coloca sempre. Dificilmente um grupo pode estar completamente fechado, seja ele a que nível for.
Também reconheço que há ideias e ideias, cada cabeça, sua sentença. Há treinadores que valorizam mais umas coisas, há outros que valorizam mais outras. Eu digo sempre uma coisa que, para mim, é muito importante: Quem está dentro do convento é que sabe o que vai lá dentro. E, portanto, quem está a trabalhar com os jogadores e as jogadoras, com as estruturas, é que sabe o que é que ali vai acontecendo. Muitas vezes, acontecem coisas no treino, até fora do treino, no dia a dia, que podem ser absolutamente decisivas para se optar por A ou por B. Dou sempre o benefício da dúvida, não é por ser treinador, a quem tem o dever de gerir. Porque os treinadores, não só pelos resultados, mas também por um conjunto alargado de outras decisões que tomam, estão sempre a ser escrutinados. Não é por acaso que existem os diretores e as diretoras que depois são eles e elas que acabam por tomar as decisões.
Portugal tem cada vez mais talento para alimentar a Seleção A?
Portugal tem muito talento, aliás, os resultados não acontecem por acaso. Como é que Portugal conseguiu chegar a uma fase tão avançada no Europeu de Sub-19? Já tinha acontecido uma vez Portugal ter chegado às meias-finais, é verdade, do Campeonato da Europa de Sub-19, mas nunca tinha sido apurado para um Campeonato do Mundo de Sub-20.
Os treinadores e as treinadoras podem ser muito bons, mas se não houver massa humana para treinar, nenhum vai ter sucesso a um alto nível. Se não tiver os melhores dificilmente vai conseguir, pode obter outro tipo de resultados, outro tipo de prestação do ponto de vista técnico ou tático, desportivo, chamem-lhe o nome que quiserem, mas só os melhores é que ganham. Onde estão os melhores e as melhores é que se ganha. Ponto. E não vale a pena ter ilusões em relação a isso. Quem tem unhas é que toca viola. Há quem tenha muita massa humana e depois não consegue ter resultados. E há outros que, às vezes, com menos massa humana conseguem.
Digo que no futebol, como na vida, a sorte é um misto de oportunidade com competência. Há quem tenha muita competência e tenha oportunidade para mostrar essa competência. Há quem tenha muita competência e nunca teve oportunidade para a mostrar. E há também aqueles que têm pouca competência e que têm sempre muitas oportunidades e a coisa nunca resulta. Ou, pura e simplesmente, não resulta. E, portanto, na vida, como no desporto, há sempre esta duplicidade entre o ter oportunidade para fazer e o mostrar que se é ou não é competente.



