Júlia, Ouriense: “Sou uma jogadora com bastante ímpeto, competitiva, com vontade de vencer”

Júlia Becker joga na defesa da equipa do Ouriense, na 2.ª Divisão. É brasileira, do Rio Grande do Sul, jogou no Brasil, na Roménia, na Lituânia. Esta é a sua primeira época no futebol português. Dentro de campo, é comunicativa, gosta de orientar, do duelo, de ganhar a bola.

Redação
Júlia Becker, Ouriense
Fotos: Maria João Gala/Magriça

Tirou o curso de Educação Física no Brasil e interrompeu a carreira de jogadora para se focar nos estudos. Foi treinadora de meninas e meninos nos escalões de formação e percebeu que tinha de jogar, mais do que ensinar, queria aplicar. Júlia Becker tem 25 anos e está a ter a sua primeira experiência desportiva em Portugal. Continuar por cá é uma opção que não descarta. 

Na sua opinião, o futebol desenvolve virtudes: a disciplina, o compromisso, a força de vontade, a determinação. Considera que é um meio ainda machista, mas que as mulheres têm condições para lutar pelos seus direitos, por melhores condições. Por igualdade. Vê o futebol feminino a crescer e realça que são precisas referências, ver jogadoras que sonharam, acreditaram e conseguiram. Isso é fundamental.
 

É a primeira vez a jogar futebol em Portugal. Como chegas aqui? 
Tinha muita vontade de jogar na Europa, passei pelo Leste Europeu, Roménia, Lituânia, mas a questão da cultura é complicada. Muitas vezes, a questão da adaptação é possível, mas, às vezes, torna-se difícil numa cultura muito diferente. E, o futebol, por vezes, não dá o tempo necessário para essa adaptação. Depois dessas experiências, queria algo próximo do Brasil, mas fora do Brasil, na Europa. 

E Portugal era o sítio perfeito?
Portugal e Espanha. Em Espanha, também tenho muita curiosidade de ter esse intercâmbio cultural, mas claro, as experiências que tive me formaram muito como pessoa e como atleta. Apesar das dificuldades que esse intercâmbio cultural impõe, é também muito enriquecedor. A gente cresce muito como pessoa e também como atleta, sem dúvida. 

Há diferenças no futebol nos sítios por onde passaste? 
Sim, bastantes. Há muito a questão da personalidade das pessoas, dos nativos de cada país. Eu vejo o futebol da Lituânia como um futebol menos agressivo e mais trabalhado. É um jogo mais jogado, mas mais devagar, com menos intensidade, menos duelo, menos briga, no sentido de um contra um, de duelo mesmo. Na Roménia já é um jogo um pouco mais intenso, com um pouco mais de força, mas também é muito mais um jogo jogado. 
Já no sul-americano e em Portugal, vejo que a gente tem um desejo, uma vontade maior, um ímpeto maior na hora de jogar. Parece que tem mais essa coisa de disputar, de querer. No Leste Europeu, eu sentia um pouco que se ganhar está bom, se não ganhar vamos trabalhar, mas não tinha essa frustração, essa vontade, esse ímpeto. Essa diferença é a mais gritante, para mim. 

Está a corresponder às tuas expectativas, ou seja, aquilo que pensavas do futebol português é o que está a acontecer? 
Sim. Muitas vezes, a gente quando vê o jogo, percebe de fora as coisas, a gente tem uma visão. E quando a gente está mesmo envolvida no ambiente, vivendo o dia a dia, a gente percebe que é um pouco diferente. Até não esperava tanto, encontrei mais do que esperava, porque o futebol feminino está a desenvolver-se, está a crescer, mas a gente sabe que tem um caminho ainda a ser percorrido para chegar um dia ao masculino. 
Então, às vezes, a gente vê de fora e tem perceções e quando está dentro ou muda ou melhora. Nesse caso, o que encontrei foi mais do que esperava. 

As mulheres também têm esse papel de mudar a visão do futebol? Estão a conseguir? 
Acho que sim. Temos muitas condições de lutar pelos nossos direitos, temos conseguido fazer isso aos poucos, mas o futebol é um ambiente muito machista. Então, pouco a pouco, a gente tem conseguido inserir mulheres nesse meio, mas é um meio que ainda não respeita a gente em questões de igualdade. 
A credibilidade que se dá a um treinador e a uma treinadora, que fizeram o mesmo curso, vai ser diferente. Mesmo que seja a primeira experiência dos dois, vai ser diferente. Vamos precisar de um pouco mais de esforço para mostrar o valor, mas acho que, de modo geral, temos conseguido. De todas as maneiras, o futebol feminino tem conseguido provar a sua força, provar o seu valor e se capacitar cada vez mais. 

A credibilidade que se dá a um treinador e a uma treinadora, que fizeram o mesmo curso, vai ser diferente. Mesmo que seja a primeira experiência dos dois, vai ser diferente.

Júlia Becker


O futebol será a tua vida profissional para sempre? Ou não pensas muito nisso?

Sou formada em Educação Física. Durante o período da faculdade, interrompi a carreira como jogadora, justamente para me poder focar. Trabalhei como treinadora no Brasil de escolinha de futebol. 

De meninas?
Meninas e meninos também, nas categorias de base. E, para mim, foi uma experiência que me agregou muito profissionalmente, mas aí percebi que era o que eu queria estar fazendo e não ensinando os outros a fazer. Consigo, no meu dia a dia, aplicar o que aprendi nesse período no meu jogo e também aprender no meu jogo para aplicar na minha vida profissional. Mesmo que não esteja trabalhando com isso, às vezes penso esse treino aqui é legal de fazer, isso agrega em tal ponto. Acho que o futebol, na verdade, o desporto como um todo faz parte da minha vida desde muito cedo. E eu pretendo seguir. Se vai ser exatamente no futebol, talvez. Gosto muito de futebol americano, vólei, futsal, basquetebol, andebol. Posso dizer que o desporto vai fazer parte da minha vida até ao último dia. 

Júlia Becker, Magriça


E como és dentro de campo, como jogadora?
Sou comunicativa, gosto de orientar, de falar. Considero-me uma atleta com bastante ímpeto, muita vontade de batalhar, de ir para o duelo, de ganhar a bola. De certa forma, sou uma jogadora com bastante ímpeto, bastante competitiva, com uma vontade de vencer muito grande. 

Pretendes continuar a jogar em Portugal ou ainda é uma questão que não se coloca?
É uma opção que tenho considerado bastante. Tenho considerado continuar aqui e tenho de falar com o meu empresário. 

O Mundial vai ser no Brasil no próximo ano. Brasil e Portugal estarão neste campeonato?

Com certeza! Com certeza! O Brasil, com certeza. Se Deus quiser, Portugal vai estar também. É importante para os países que apoiam o futebol feminino ter essa visibilidade. A gente foi assistir ao amigável do Brasil e Portugal, foi uma experiência muito legal, estarmos próximas do sonho da gente. Todo o mundo que joga futebol tem o sonho de representar a seleção nacional. Estar ali e ver essa proximidade do nosso sonho é algo muito legal. 

A disciplina tem sido uma das partes fundamentais que o futebol te dá para a tua vida?
Sim. A nossa vida pessoal e o nosso trabalho funcionam em intercâmbio. Tudo que a gente faz na nossa vida pessoal acaba refletindo no profissional, e tudo que a gente precisa fazer no profissional acaba refletindo no nosso pessoal. O desporto ensina muitas virtudes, auxilia no desenvolvimento de muitas virtudes. Acredito que resiliência, disciplina, força de vontade, tudo isso vem com o desporto, vem com o futebol. Então dá para dizer que muitas vezes que levanto da cama para ir ao ginásio, muitas vezes que levanto para treinar, é por disciplina, é porque gosto de fazer isso. Mas, às vezes, como qualquer ser humano, também não gostaria de sair da cama para treinar. Mas a gente sai por amor e por disciplina. Precisa ser feito, tem de ser feito. 

O futebol feminino precisa muito de referências. Muito. Acho que isso faz muita diferença.


Há alguma coisa que te aborrece no mundo do futebol em geral?
Não dá para dizer desigualdade porque, como tudo na vida, há sempre algo que é extraordinariamente bom, bonito, tecnológico, e algo que não é tanto. Existem clubes que já chegaram à elite, tanto no feminino como no masculino, e outros clubes que não. O que me aborrece, acho que se pode dizer assim, é essa distância entre eles, a distância do que está lá para trás, o caminho que ele precisa percorrer para chegar onde os topos já chegaram. 
Esse caminho, às vezes, tem muitos empecilhos que tornam a caminhada mais difícil. E isso dificulta porque se há 11 vagas para os melhores e essas 11 estão preenchidas, a pessoa vai precisar passar por um lugar não tão bom. Se todos tivessem as mesmas condições de desfrutar e de conseguir chegar lá, acho que seria um ambiente mais competitivo. 

Tens referências no futebol?
Tenho. No futebol masculino, o Thiago Silva e o Casemiro, um central, outro médio defensivo. Para mim, são jogadores espetaculares. No feminino, a minha referência é a Formiga. Para mim, foi a jogadora mais espetacular que já vi jogar. Carrego esses três comigo. 

Na Roménia ou na Lituânia, onde jogaste, havia referências? 
Não. 

É importante ter essas referências, gente que se admira? 
É importante. A gente sabe que o alto rendimento, a elite, o topo, é para poucos. Se não tens em quem te espelhar, vais continuar na média. Uma coisa que eu carrego comigo é: mira no topo, mas trabalhe para ser melhor do que a média. Porque quando tu te propões a ser melhor do que a média, tu estás muito mais próxima do topo. Mas para isso acredito que precisa de referência, precisa ver alguém que fez, alguém que acreditou, que conseguiu. Acho que isso faz muita diferença. O futebol feminino precisa muito de referências. Muito.  
E como lidas com as saudades de casa e da família?
Acho que é o propósito. O meu propósito é jogar futebol, é ser uma grande atleta, uma referência no futebol feminino. Quando acordo é a primeira coisa que preciso pensar. A saudade vem, como é lógico. Gostaria, muitas vezes, que meus pais estivessem aí para me apoiar, a minha família, mas são escolhas que a gente faz. O propósito precisa ser maior do que os obstáculos. O propósito é o que move a gente nesses momentos.