Não foi fácil entrar no futebol. Não por ser menina, mas por questões de logística. Não havia clube perto de casa com equipa feminina, não havia transportes, não havia condições. Insistiu até entrar no Murtoense. Deixou o futsal e dedicou-se ao futebol. Andreia Norton viu-lhe o jeito, o potencial. Passou pelas seleções jovens, tem 22 internacionalizações, dois golos marcados.
Joana Gomes passou pela Liga BPI, amadureceu, aprendeu a não desperdiçar oportunidades, a jogar simples. É uma jogadora criativa, que gosta de treinos exigentes, que gosta de evoluir. Tem 25 anos, gosta de ter bola no pé, e reconhece o trabalho e o esforço das jogadoras que vieram antes de si, que abriram caminho para o crescimento do futebol jogado por meninas, raparigas e mulheres.
De que forma a tua experiência na Liga BPI tem sido importante para jogares na equipa do Feirense que está na 3.ª Divisão?
Acabei por amadurecer muito por ter estado na Liga BPI, no sentido em que é muito diferente. Jogava numa equipa em que não conseguia ter tanto protagonismo, não conseguia ter tanta bola, andava muitas vezes atrás de resultado, tinha de procurar bola. Fisicamente acabou por me ajudar muito, amadureci, quando toco na bola, tento não desperdiçar com tanta facilidade, tento utilizar essas oportunidades da melhor forma e jogar de forma mais simples. Acho que isso acabou por ser o meu maior amadurecimento na Liga BPI.
A subida de divisão é o maior objetivo? É isso que a equipa pretende?
Sim, depende muito daquilo que nos é incutido, da mensagem que o treinador passa para nós e da forma como ele gosta de jogar. Depende muito disso também. No ano passado, tive uma treinadora a dizer-me: ‘Joana, fica mais tempo com a bola, não desperdices, não passes logo’. Sinto que sou mais criativa e ao jogar simples estou a tirar um bocadinho daquilo que é a minha qualidade.
Este ano, dizem-me: ‘Joana, joga simples, joga simples’, acaba por ser um bocadinho diferente. Mas, no fundo, acabo por jogar da forma como acho melhor no momento do jogo.
Como é a tua relação com os treinadores? Digeres o que dizem, criticas para dentro, percebes o alinhamento?
Não sinto que sou muito velha no mundo do futebol, mas também não sinto que sou muito nova. Comecei a jogar muito cedo, não passei por muitos clubes, mas já tive alguns treinadores, treinadores muito diferentes, treinadores antigos que mandavam uns murros na mesa e diziam ‘não está nada bem’. Às vezes, não temos maturidade para lidar com isso e mexe com o nosso psicológico, mas isso também é bom, depende da jogadora. E já tive treinadores para quem estava sempre tudo bem. Por isso, é sempre muito difícil comparar, mas é uma vantagem ter apanhado um bocadinho de tudo porque já estou preparada para essas coisas.
Como começas a jogar futebol?
É engraçado. Os meus pais não eram muito a favor de eu jogar futebol, não por ser menina, mas por haver poucas equipas de futebol feminino, era misto, não havia tantas condições, eles também estavam pouco por dentro do assunto, havia pouca informação na altura, nunca acharam por bem meter-me no futebol. Eu sempre os chateei muito para isso, até que surgiu a oportunidade de jogar na escola, jogava futsal no desporto escolar. Vi isso como uma oportunidade, aproveitei e joguei.
A Andreia Norton estudava comigo, é de Ovar também, estava na mesma escola do que eu, viu um jogo meu de futsal, gostou muito de mim, entretanto disse-me que podia experimentar, que podia fazer uns treinos no Albergaria, onde ela estava nessa altura, e se gostasse que podia ficar. Fiquei muito contente com a ideia, fui dizer aos meus pais, contei o que a Andreia Norton tinha dito, e consegui convencê-los não sei como. Fiz o meu primeiro treino no Albergaria, só que depois havia a questão da logística, os treinos eram tarde, não havia transporte, era longe para mim, os meus pais não quiseram muito que eu ficasse lá, mas decidiram que íamos procurar um clube mais perto para eu jogar. Na altura, havia o Murtoense, que pertence a Estarreja, e eles tinham essa logística de transporte, vinham buscar a casa. Aproveitei e fui para lá jogar. Começou assim.
A Andreia Norton viu um jogo meu de futsal, gostou muito de mim, disse-me que podia experimentar, que podia fazer uns treinos de futebol.
Joana Gomes
Valeu a pena insistires no futebol?
Sim, sem dúvida.
Jogaste em várias posições ou foste sempre médio?
Maioritariamente, fui médio, mas já me pediram para jogar a lateral, já me pediram para jogar a extremo. Aliás, na seleção joguei muitas vezes a extremo.

Jogaste na seleção?
Sim, nas camadas jovens, sub-16, sub-17, sub-19. Entretanto, entro na Ovarense, a Ovarense desceu. Entretanto, mudei de clube, fui para o Valadares, as coisas não estavam a correr como eu queria, acabei por voltar à Ovarense. Foi quando vi o meu sonho da seleção a ir embora.
Neste momento, jogas e trabalhas?
Trabalho como consultora de preços, tipo auditora. Trabalho para Jerónimo Martins, nos supermercados.
És mãe e jogadora. Como tem sido conciliar essas duas grandes tarefas da vida?
É um desafio e tanto. Eu tinha intenções de pendurar as chuteiras quando fui mãe. Neste momento, não sinto que tivesse sido a escolha mais acertada, mas era o que toda a gente me dizia para fazer. Sinto, por vezes, como mãe que devia ter desistido um bocadinho dos meus objetivos, porque ser mãe é isso, é dar prioridade a um filho e abdicar um bocadinho dos nossos objetivos e dos nossos sonhos. E eu senti, não sei se por obra do destino, que a minha missão já estava feita, mas depois senti que não estava a dar um bom exemplo. Sentia que tinha tido uma boa carreira no futebol, mas que podia ter feito mais, então a mensagem que ia passar não era tão boa, quis desistir por causa disso. No início foi um bocadinho complicado gerir tudo, mas decidi continuar. Então continuei, porque lá está, queria passar outra mensagem, de não desistir.
Acabas por ser um exemplo, és mãe e continuas no futebol.
Por vezes, culpava-me um pouco do que estava a fazer, sair de casa, deixar o meu filho, mas acabei por insistir.
Gosto muito de um treino com exigência e gosto de sentir que estou a evoluir.
O que mais gostas no treino?
O convívio é muito importante, mas quando treino, também por ter sido mãe e por tentar aproveitar o meu tempo da melhor maneira, não gosto de vir para aqui para brincar. Gosto de aproveitar o tempo em que estou aqui, se não estava em casa. Dou muito valor ao tempo que tenho e tento aproveitá-lo da melhor forma. Gosto de um treino com exigência, apesar de ser a primeira pessoa a reclamar. Estou sempre a reclamar, mas gosto muito de um treino com exigência e gosto de sentir que estou a evoluir.
E como vês o crescimento do futebol feminino?
Estou muito contente. Sinceramente, nunca pensei chegar tão rapidamente onde chegou. A aposta ainda é pouca, de qualquer forma, é um caminho que se está a desenvolver aos poucos. Há muitos países que estão muito mais desenvolvidos do que o nosso nesse aspeto, mas tem de se começar por algum lado e ainda bem que alguém tomou a iniciativa. Também foi muito fruto do esforço daquelas que já passaram por aqui e que tentaram que o futebol feminino chegasse mais longe, que levaram o nome do futebol feminino para mais sítios.
Qual é a tua maior referência no futebol feminino?
Gosto muito da Andreia Norton, é da mesma posição que eu, joguei muitas vezes contra ela e gostava da forma dela jogar. Se calhar, não é a jogadora mais parecida comigo a jogar, mas gosto muito da maneira dela.
Joana, o que é, para ti, um bom jogo?
Gosto muito de ter bola. É normal nos médios, os médios gostam de ter bola. Para mim, um bom jogo é essencialmente conseguir manter a bola. Sei que, às vezes, jogar feio é bonito, mas não apoio isso.
É importante ter bola, é importante aprender a jogar com bola. Sinto que, às vezes, falta isso também, principalmente nas equipas que chegaram há pouco tempo e nas jogadoras mais novas. É uma mensagem que está a ser incutida desde cedo, antes era jogar da maneira que dava. Hoje há muita preocupação em ter bola e isso é muito importante.



