Zé Nando: “Com pouco, fazemos muito. Somos um clube pequeno, mas trabalhamos como os grandes”

Zé Nando é o treinador da equipa do Valadares Gaia, na Liga BPI. A capacidade mental de uma jogadora é das virtudes que mais aprecia. Apresentou uma proposta profissional ao clube, para dentro e fora de campo, e tem-se saído bem. “Se a jogadora jovem tiver qualidades para jogar, não tenho medo de arriscar. Convivo muito bem com isso”, garante.

Zé Nando, Valadares
Fotos: Igor Martins/Magriça

Tem uma vasta experiência nacional e internacional, como jogador e como treinador. Tem uma licenciatura em Ciências da Educação e um mestrado em Ciências do Desporto, Treino de Alto Rendimento Desportivo. Tem também o curso UEFA Pro. Sabe o que quer e como fazer. “Sou um homem de terreno, mas antes de ir para o terreno, gosto de saber como vou, gosto de ir à teoria, sou curioso, vou ler”, afirma. Apresentou um plano profissional ao Valadares, assumiu a equipa e colocou-a em lugares de topo. 

Dia após dia, trabalha para que as jogadoras dominem todos os momentos do jogo, bolas paradas também. Foca-se nos processos ofensivos e defensivos, está atento às transições entre os dois. Em sua perspetiva, a Liga BPI está bastante competitiva, os clubes não facilitam, reforçam-se cada vez mais – e considera que isso é bom, que é importante. Admite que é um treinador calmo, mas convive muito mal com a derrota. Não gosta de perder e não sossega até dissecar o que correu mal.

Como é o seu método de trabalho? 
O método de trabalho é tentar que as jogadoras cheguem ao dia do jogo bem. E quando digo bem, digo competitivas, muito capazes, que consigam se divertir e, ao mesmo tempo, consigam cumprir o plano e a estratégia para aquele jogo. Durante a semana, trabalho todos esses aspetos, gosto que a equipa domine os quatro momentos do jogo e que também domine as bolas paradas – já há quem lhe chame o quinto momento -, o que é muito importante. 
O meu método é desenvolver todas essas capacidades, não me focar só nos processos ofensivos e descurar os processos defensivos. Não descurar as transições entre o domínio dos processos defensivos e ofensivos. É, sobretudo, trabalhá-los todos porque depois o jogo está lá todo. 

É um treinador técnico-tático?
Também, faz parte. Hoje o físico é um pré-requisito para a competição, quanto mais acima estiver, mais pré-requisitos físicos tem de ter. A aprendizagem motora é essencial, mas depois o jogo é todo técnico-tático. Claro que é físico, obviamente, mas isso é um pré-requisito. 

Quais as qualidades que privilegia numa jogadora? 
A capacidade mental é a mais importante porque essa é que faz a diferença. A gente costuma dizer que, às vezes, é do pescoço para cima que faz a diferença do futebolista ou da futebolista. E, portanto, a capacidade mental é muito, muito, muito importante. Ter uma boa tomada de decisão. Para ter uma boa tomada de decisão tem de ter uma aprendizagem motora e uma capacidade técnica acima da média. E depois, claro, isto tudo englobado num processo tático faz a jogadora. Mas, de facto, aquilo que mais aprecio são as qualidades mentais. 

Tem colocado jogadoras jovens em campo. É um treinador que não tem medo de arriscar nesse talento? 
Não tenho medo da juventude, não tenho medo da irreverência, não tenho medo de nada disso. Arrisco quando for preciso. Agora sei que também há aquela parte menos boa, vão errar mais vezes, se calhar, ter erros que a jogadora experiente não dá, mas esse é o risco que nós corremos. 
Há uma coisa, a gente diz que a experiência só se ganha lá dentro. Posso ter 50 anos, se não passar pelas vivências, nunca mais vou ser experiente. A experiência ganha-se jogando e, portanto, a gente treina para jogar. Se a jogadora jovem tiver qualidades para jogar, não tenho medo de arriscar. E convivo muito bem com isso. 

Acredita no talento da jogadora portuguesa? 
Muito. O talento anda cá. 

Mas ainda se vai buscar muitas jogadoras estrangeiras, não vai?  
Vai porque é um processo cultural. Há muitas barreiras culturais que estamos a ultrapassar. Depois há um investimento que tem de ser mais aprofundado na jogadora portuguesa, sobretudo na formação, descobrir novos talentos, porque eles andam aí. Por outro lado, há aquela barreira cultural que a mulher não é para jogar futebol. 

Ainda sente isso?
Menos, mas ainda sinto. Não nestas jogadoras que estão completamente adaptadas, já ultrapassaram essa barreira e têm pais e familiares que compreendem. Mas ainda há muita jovem que conheço que gostava de experimentar e, às vezes, não o faz porque há essa barreira. Quando rompermos essa barreira e apostarmos mais na formação, vamos, se calhar, ter mais jogadoras a aparecer e de qualidade. 

Isto está muito competitivo, já não tem nada a ver com aquele futebol feminino que começou há 10 anos, que era quase responsabilidade social dos clubes, não havia visibilidade, não havia share.

Zé Nando

Nas últimas épocas, colocou o Valadares em lugares de topo. Há uma estratégia? 
Trouxe uma proposta, não só de jogo, mas uma proposta profissional para o clube porque penso que passa por aí, não só dentro do campo, mas fora do campo. De há três anos para cá, isto está muito competitivo, já não tem nada a ver com aquele futebol feminino que começou há 10 anos, que era quase responsabilidade social dos clubes, não havia visibilidade, não havia share. Apostava-se porque era uma coisa não só bonita, mas de algumas pessoas terem prazer em jogar e praticar. Hoje não, hoje já se joga com outras ferramentas, já se joga, por exemplo, para o mercado, porque já está a abrir como o masculino e, portanto, isto está a ser levado a sério.
Tínhamos de profissionalizar mais o clube e foi essa a proposta que trouxe. As pessoas aderiram e tenho pessoas a meu lado que são muito competentes. E nós, com pouco, fazemos muito. Somos um clube pequeno, mas trabalhamos como os grandes, só não temos as ferramentas que gostaríamos de ter para sermos mais competitivos. 
Foi toda uma estratégia profissional fora do campo. Por exemplo, uma das estratégias foi trazer mais treinos, outra foi começar a treinar só de manhã e ter um espaço só para nós, não estar a trabalhar ao fim da tarde e com restrições do campo porque havia outras equipas para treinar. Foi fazer estágios, foi trazer nutricionista para dentro do campo, foi trazer, na dimensão física, uma pessoa que controlasse as cargas e controlasse o repouso e a alimentação das atletas. Tudo isto começou a ser profissionalizado e, claro, o trabalho depois aparece. E depois há também a qualidade das jogadoras. 
A Erica Meg Parkinson, por exemplo, já estava no futebol, estava no futebol masculino do Leixões, quando teve de passar para uma equipa feminina, descobrimos que estava ali um talento, vamos trazê-la, tivemos de falar com os pais, com o agente. Para isso acontecer, tivemos gente que andou a ver jogos, tivemos gente que andou a procurar, tivemos gente que andou a pesquisar onde é que andam os talentos. E isto não se faz avulso, faz-se sistematizando. 

Tem muita experiência internacional. Esteve lá fora a treinar, já foi jogador. Tudo isso dá-lhe lastro e robustez que traz para o futebol feminino? 
Dá, sim senhor, porque a experiência é aprendizagem acumulada. Sou um homem de terreno, mas antes de ir para o terreno gosto de saber como vou, gosto de ir à teoria, sou curioso, vou ler. O conhecimento não passa se não for praticado. Sabe-se das coisas, mas isso não é conhecimento, é só saber das coisas, se não as praticar, torna-se obsoleto porque se esquece. 

Um bom jogo é quando as duas equipas são competitivas, quando há emoção, quando há muito conteúdo em termos técnico-táticos de um lado e do outro.

Diz que a Liga BPI está mais competitiva. Agora são 10 equipas, na época passada eram 12, está a encolher. Não seria melhor serem mais? 
Fui um daqueles que contestei quando passou para 10 equipas. E contestei porquê? Porque iria ter menos jogos, as equipas grandes iam ter menos jogos para preparar as suas tarefas internacionais. Hoje, e vendo o campeonato como está, não contesto tanto, sou sincero. Vejo com bons olhos as 10 equipas. Isto porquê? Porque depois alteraram o quadro competitivo da Taça da Liga, como há mais jogos, compensa as 4 jornadas a menos que temos com a redução de 12 para 10 clubes na Liga BPI. 

Uma média de dois jogos por mês… Não são muitas paragens? 
O que acho é que se pode tornar uma Liga mais elitista, uma Liga só para os melhores. Por um lado, hoje, estou muito cético, contestei de facto isso, gostaria de fazer esta avaliação no final desta época. 
Uma coisa posso dizer é que isto está mesmo competitivo, os clubes estão todos a reforçar-se. Reduzindo para 10, os clubes estão mesmo a reforçar-se. Ninguém quer ficar para trás. E isso é bom. 
Quanto ao formato anterior, havia sempre uma ou outra equipa que não tinha possibilidade de acompanhar as exigências da Liga BPI. Se tivéssemos 12 ou 14 equipas do mesmo nível, eu voltaria às 12 ou às 14, mas só assim. Então aí teríamos uma Liga muito melhor e muito mais competitiva, com mais jogos. Mas é o que é. 

Quais são as suas expectativas para o Valadares no final da época?
Fazer o melhor possível. 

Ficar nos três primeiros lugares? 
Eu gostava, obviamente que gostava, mas sei que vai ser muito difícil. Quando o Valadares começa a perturbar muito, há alguns entraves. No ano passado, senti isso. Sentimos o que é ser pequeno. Sinto que, às vezes, quando estamos para dar aquele salto ou para uma final ou outra coisa, há qualquer coisa ali contra a qual temos de lutar. 

Lida mal com a derrota ou é um treinador calmo? 
Sou calmo, mas convivo muito mal com a derrota. Fico a pensar nela, faço uma reflexão muito profunda, e aquela noite é muito dolorosa. Penso em tudo, às vezes parece que já quero jogar amanhã para recuperar. Sou calmo, não sou de andar à “chuteirada”, mas convivo muito mal com as derrotas porque não gosto de perder. E depois ando à procura do que esteve mal, enquanto não encontrar, não sossego. 

Míster, o que é, para si, um bom jogo? 
Um bom jogo, para mim, é quando as duas equipas são competitivas, é quando há emoção, é quando os atletas têm prazer em jogá-lo, dividem o jogo, quando há muito conteúdo em termos técnico-táticos de um lado e do outro. É quando o público gosta e se diverte, sobretudo.