A bola era a sua melhor amiga nas brincadeiras quando ainda era filha única. Uma companhia, uma maneira de se distrair nos tempos livres e no recreio da escola. O gosto não desapareceu, jogou futsal, chegou ao futebol com 20 anos. É uma jogadora comprometida, que dá luta, não dá um lance por perdido, independentemente do resultado. Uma atleta com muita entrega e muita atitude. É assim que se define dentro das quatro linhas.
Vê uma 2.ª Divisão bastante competitiva e a equipa está a dar tudo. Acredita que o trabalho do presente dará frutos no futuro, trará resultados positivos.
Acompanha, pela televisão, a liga espanhola e a liga inglesa, as melhores do futebol feminino, na sua opinião. Gosta de ver jogar Mapi León, central do Barcelona. Cláudia tem 30 anos e é engenheira química numa empresa, na área de logística, na parte de planeamento da produção.
Como começas a jogar futebol?
Desde pequenina que me lembro que brincava sempre com uma bola de futebol. Tenho uma irmã mais nova, ou seja, durante uns aninhos era filha única e, para brincar, a bola começou a tornar-se a minha melhor amiga, por assim dizer. Mesmo na escola, sempre mantive esse gosto, estava sempre com os rapazes a jogar à bola, com amigos e familiares também.
Portanto, desde que me lembro que gosto de jogar futebol. Mas a nível federado, foi só mais tarde porque onde eu morava não havia equipas femininas. Fizeram um ano de futsal, que foi a minha primeira experiência federada, e mais tarde é que ingressei no futebol, já com 20 anos, portanto, tardiamente.
Foi difícil deixares o futsal para começares a jogar futebol?
Um bocadinho, sim, mas havia mais oportunidades a nível de futebol e os desafios eram maiores.
Ser capitã é uma responsabilidade acrescida?
Acrescida, sim, é verdade. Nem sempre é fácil.
Como é que geres o balneário, que mensagens gostas de transmitir à equipa?
Este ano, somos apenas duas capitãs, até agora tínhamos sido mais. E era interessante porque tínhamos diferentes personalidades. Havia uma capitã que passava mais uma mensagem de força e de união à equipa. Eu sou uma capitã que não fala tanto nesse contexto, sou mais atenta dentro do campo para tentar ajudar a equipa, corrigir posições ou tentar animar as pessoas quando algo não corre tão bem, um passe, uma finta, o que seja. E tento sempre dar o exemplo em tudo aquilo que faço para o resto da equipa e motivá-la também.
E dentro do campo, como te defines como jogadora?
Defino-me por aquilo que gosto de ver noutra jogadora. Compromisso, sempre. Lutar em qualquer tipo de lance até ao último minuto, esteja o resultado a favor ou contra nós, sempre. Nunca desistir de nenhum lance, ou seja, muita raça, muita entrega, muito compromisso e principalmente muita atitude. E tento sempre puxar para cima as colegas quando algo não corre tão bem, não desmotivar, estarmos sempre ali com o foco máximo.
Com medo de fazer falta para penálti?
Sim, temos sempre de ter atenção. Nunca queremos que isso aconteça, mas faz parte da nossa posição. Também treinamos para isso, para evitar esse tipo de lance e abordá-los da melhor forma.
Defino-me por aquilo que gosto de ver noutra jogadora. Compromisso, sempre. Lutar em qualquer tipo de lance até ao último minuto, esteja o resultado a favor ou contra nós.
Cláudia Fonseca
Como se motiva uma equipa que passa por uma fase mais complicada?
Não é muito fácil. Tivemos algumas mudanças recentemente, temos falado muito sobre isso. Apesar de tudo, o grupo mantém-se unido e estamos todas com o foco de que estamos a trabalhar para o futuro. E que as vitórias irão chegar certamente e o trabalho que estamos a ter agora irá dar frutos no futuro. Então é muito foco nesse sentido. E perceber que aquilo que estamos a fazer agora, apesar de não se traduzir em resultados positivos, no futuro, teremos certamente resultados a nosso favor.

O Leixões subiu da 3.ª para a 2.ª Divisão. A 2.ª está bastante puxada, bastante competitiva?
Sim, felizmente o futebol feminino começa a estar cada vez mais desenvolvido cá em Portugal. A 2.ª Divisão já é uma prova disso, já temos equipas muito competitivas. Claro que nós, vindo de uma 3.ª, ainda não temos todos os meios necessários e toda a estrutura que, se calhar, algumas equipas já têm. E isso depois, por vezes, dentro de campo, pode ou não fazer a diferença. Mas é um trabalho. Se queremos que o futebol feminino se desenvolva cada vez mais, temos de começar por algum lado. Havendo clubes mais desenvolvidos, é aprendermos com eles e tentar aplicar também para continuar esse desenvolvimento.
Acompanhas futebol feminino na televisão? Vais ver jogos?
Sim. Normalmente acompanho mais a liga espanhola e a liga inglesa que são, neste momento, a meu ver, as melhores ligas a nível do futebol feminino.
E tens referências no futebol?
Sim, tenho, no masculino e no feminino. No masculino, tenho o Rúben Dias, defesa central da seleção e também do Manchester City. No feminino, gosto muito de ver a Mapi León, central do Barcelona.
Enquanto conseguir manter a vida profissional com o futebol, para mim, está ótimo. Nunca pensei em chegar a uma seleção, nunca foi uma ambição.
Tens algum sonho no futebol?
Não, nunca tive. O futebol sempre foi uma paixão desde pequena. E tendo em conta as dificuldades que sei que o futebol feminino tem, sempre tive os pés na terra nesse contexto. Por isso, tenho um trabalho noutra área que também gosto muito. Então, nunca tive um sonho. Costumo dizer que enquanto conseguir manter a vida profissional com o futebol, para mim, está ótimo. Nunca pensei em chegar a uma seleção, nunca foi uma ambição.
E nos dias frios e com chuva, é sair de casa?
É sair de casa, faz parte. Claro que, às vezes, pode custar um bocadinho, principalmente se estivermos mais cansadas do dia a dia, que quase todas temos. Mas já faz parte e até nos ajuda a aliviar um bocadinho o stress, conviver um bocadinho é sempre bom. Apesar do frio e da chuva, acaba sempre por ser bom.
O que é que o futebol te tem dado?
O futebol é muito bom porque trabalhamos num coletivo, ou seja, num grupo grande. Trabalhamos com diferentes personalidades, o que depois podemos também transitar para a nossa vida profissional e pessoal. Ou seja, aprender a lidar com diferentes personalidades, trabalhar num coletivo, porque no futebol não adianta ter uma jogadora que jogue muito bem se o resto da equipa não colaborar. Tem coisas muito benéficas nesse sentido.
Cláudia, o que é, para ti, um bom jogo?
Um bom jogo é ter a equipa toda unida e focada para conseguir o melhor resultado. E saber que damos tudo de nós, independente do resultado. Claro que queremos sempre a vitória, mas independente do resultado, saber que a equipa trabalhou o máximo que conseguiu, o melhor que conseguiu, que ninguém atirou a toalha ao chão. Isso, para mim, é um bom jogo.



