Marwin Bolz: “A disciplina é fundamental porque o futebol é feito de pormenores”

Marwin Bolz é o treinador do Sporting de Braga. O técnico alemão, de 28 anos, veio do Hamburgo, de onde guarda a recordação de um jogo num estádio com 60 mil pessoas. Continua focado em vencer e em alcançar uma boa posição na tabela classificativa. Para si, todos os detalhes contam.

Redação
Marwin Bolz
Fotos: Igor Martins/Magriça

É a sua primeira experiência no futebol português, depois de ter subido a equipa feminina do Hamburgo da 2.ª para a 1.ª divisão num estádio cheio. É uma imagem que jamais esquecerá. É um treinador ambicioso, concentrado no estilo de jogo, focado nos detalhes. Neste momento, o objetivo é ter a equipa competitiva em todos os jogos. 

Sabe que está num clube grande, não sente pressão, mas vontade de vencer. Realça a aposta do Braga em ter construído uma casa só para o futebol feminino, sinal de reconhecimento. Inaugurado há pouco mais de um ano, o Estádio Amélia Morais tem condições únicas. Marwin Bolz salienta ainda a aposta na formação, na subida de jogadoras jovens à equipa principal. O compromisso com o treino é uma das qualidades que mais aprecia numa jogadora. 

Como descreve a sua experiência, até ao momento, no Braga? 
De um modo geral, percebe-se que Braga e Portugal têm uma cultura diferente da de Hamburgo e da Alemanha. Penso que aqui as jogadoras estão muito focadas na parte técnica. Têm uma grande técnica, têm também uma boa capacidade de jogo, e fazem tudo para encontrar soluções para pequenos lances e resolver problemas em campo. Na Alemanha, o aspeto físico era realmente muito difícil. Acredito que essa seja uma grande diferença. 
Também é possível perceber que estamos aqui a construir um projeto sólido.
No Hamburgo, começámos do zero e conseguimos o acesso à 1.ª divisão. Aqui já estamos na 1.ª divisão. Somos um clube que já ganhou tudo e agora trata-se de otimizar os pequenos detalhes.
Quando falamos de uma jogadora portuguesa, tal como falo de uma jogadora espanhola, estamos a falar daquela jogadora com capacidade técnica com e sem bola, uma jogadora agressiva.

Como descreveria essa jogadora portuguesa, não só em termos de habilidade técnica, mas também de agressividade? 
Acho que se nota isso em todos os nossos jogos da Liga BPI, onde têm essa capacidade de se entregarem totalmente, dando 100% quando há um duelo. O que realmente gosto em Portugal é o foco em vencer. Por exemplo, na Alemanha, muitas jogadoras e equipas concentram-se no processo, enquanto aqui se vê claramente as jogadoras, as equipas, os treinadores, com o foco mais na vitória, o que é ótimo.

E aprecia esse foco? 
Sim. Portugal, comparado com a Alemanha, com cerca de 85 milhões de habitantes, é um país muito pequeno com 10 milhões. Mas quando comparamos o nível de jogo de Portugal com o da Alemanha, não há grande diferença. São os pequenos pormenores, mesmo havendo menos gente em Portugal, que fazem a diferença. Essa mentalidade, mesmo não tendo o maior número de jogadoras, mas as que estão dão 100% e fazem tudo o que podem para ganhar um duelo ou um jogo, é o que nos motiva.

Marwin Bolz

Adapta os treinos consoante a equipa adversária ou a fase da temporada?
Chegar a um novo clube também significa conhecer novos processos porque, como disse, a cultura é diferente, por isso precisamos de fazer coisas diferentes também. Precisávamos de saber como as jogadoras trabalham e qual a melhor forma de aprenderem. Obviamente, não é a mesma coisa que fiz na Alemanha porque há uma cultura diferente.
Adaptámos muitas coisas e ainda não terminámos esse processo de adaptação porque procuramos sempre a melhor forma de as jogadoras aprenderem ao máximo. E, sim, adaptamos bastante o que treinamos e em que dias o fazemos. Adaptamos também o volume das sessões de treino. E é nisso que a nossa equipa técnica se concentra, em observar os resultados e, em seguida, procurar melhorias para obter resultados ainda melhores.

Observando também as adversárias?
Sim, claro. É importante que as jogadoras percebam o que fazer, o que a equipa adversária está prestes a fazer, e também que nós percebamos, ok, é aqui que podemos atacar a adversária.
Geralmente, gostamos de nos concentrar no nosso estilo de jogo e pensamos: ok, é isto que a adversária está a fazer, então, como podemos usar os nossos princípios, o nosso estilo de jogo, para ganhar esta partida? Acho que é sempre uma combinação de nos prepararmos para a adversária e prepararmos a nossa equipa. 

Na Alemanha, muitas jogadoras e equipas concentram-se no processo, enquanto aqui se vê claramente as jogadoras, as equipas, os treinadores, com o foco mais na vitória, o que é ótimo.

Marwin Bolz

Qual é o maior objetivo do Braga para esta épocaMelhorar algo específico ou alcançar uma boa posição no campeonato? 
A nossa ambição é sermos competitivos em todos os jogos. E, claro, no campeonato, queremos lutar pela classificação, por uma posição na tabela.
Além disso, nestes últimos sete, oito meses, estamos num processo de procura do nosso caminho, de compreender a equipa e criar as melhores condições para que possa jogar um futebol de sucesso. E acho que estamos num bom caminho. Por exemplo, com os quatro jogos consecutivos que vencemos, mostramos que estamos numa boa fase e que podemos competir de igual para igual com as melhores equipas. Isto demonstra que a nossa ideia está a evoluir e que estamos num momento muito positivo.
O segundo objetivo é continuar a criar e a encontrar o nosso estilo de jogo. Além disso, damos muita importância à nossa academia de formação. Esta época já foram nove jogadoras que integrámos na equipa principal, o que é um número expressivo. E não se trata apenas de entrarem em campo e jogarem um minuto, elas têm um papel importante. 
Temos muito potencial e o nosso objetivo, enquanto clube, é tornar a nossa estrutura tão sólida que o futebol feminino possa trabalhar em conjunto com a academia e revelar jogadoras. Não precisamos de comprar ou contratar jogadoras de outros clubes, claro que também faz parte do jogo contratar jogadoras de diferentes clubes, mas quanto mais pudermos criar a nossa própria formação, melhor. É também algo que este clube proporciona: a possibilidade de trabalhar nestas condições para formar jovens e promissoras jogadoras. E há muitos exemplos, como a Nádia Bravo.

Sente alguma pressão por estar no Braga, que chegou a estar em 3.º, em 2.º e até no 1.º lugar?
Pessoalmente, tenho ambições muito altas e estou sempre à procura do melhor. Mas o que posso fazer, à minha maneira, é transmitir à equipa qual é o nosso objetivo e focar-me no processo para o alcançar. Estou muito focado no que posso fazer. Portanto, não há necessidade de pressão porque quero o melhor para mim, quero o melhor para as jogadoras. Quero tudo. E é por isso que não há necessidade de pressão. Eu uso a palavra vontade. Tenho muita vontade de ganhar jogos. Tenho muita vontade de melhorar as jogadoras. Tenho muita vontade de dar oportunidade às jovens jogadoras e ajudá-las a crescer. E estou com muita vontade de vencer.

Como Steve Jobs costumava dizer: “Stay hungry, stay foolish.”
Sim, é isso mesmo. As jogadoras mais ambiciosas vão conseguir mais do que aquelas que têm um currículo impecável. É essa a mentalidade no fim do dia.

Quais as qualidades que mais valoriza numa jogadora?
O importante é ser recetiva ao treino. Isso é fundamental. E é também a minha função como treinador planear a sessão de treino, fazer as perguntas certas, e comportar-me de forma que elas se sintam à vontade para aprender. Portanto, não depende só da jogadora, mas também de mim. Esta capacidade de ser treinada ou de ser recetiva ao treino é realmente importante. 

Marwin Bolz

E os aspetos técnicos, como a habilidade, são importantes para si enquanto treinador? Ou valoriza mais o esforço das jogadoras?
Acho que o primeiro passo é sempre o esforço e depois vêm as outras qualidades. Porque, no geral, acredito que cada jogadora tem uma “arma” específica, uma qualidade específica, e a nossa tarefa é ajudá-las a usar essa “arma” ainda melhor. É assim que gosto de pensar e de falar de futebol.
Além de ser recetiva às instruções, para mim, a disciplina será sempre fundamental porque o futebol é feito de pormenores. Quando se perde um detalhe, talvez não se consiga o resultado desejado. 
É preciso ter muita disciplina para fazer tudo, sempre. Mesmo quando ninguém está a ver, tem de o fazer. Aprecio esse tipo de hábito nas jogadoras.

Tenho muita vontade de ganhar jogos. Tenho muita vontade de melhorar as jogadoras. Tenho muita vontade de dar oportunidade às jovens jogadoras e ajudá-las a crescer.

Qual a equipa que mais gosta de assistir, feminina ou masculina? Ou um técnico de quem realmente gosta.
Gosto da liderança de Jürgen Klopp, obviamente. É alemão e a sua liderança é ótima. Gosto muito da forma como ele cria uma relação com os jogadores, é algo que acho realmente importante. Gosto também da forma como Hansi Flick se está a sair agora no Barcelona, teve alguns problemas na Alemanha, diria eu, mas agora está a fazer um bom trabalho no Barcelona.

No futebol feminino, tem algum treinador que admire? Ou alguma equipa que goste de ver?
Acompanhava bastante o Bayern de Munique. Acho que, enquanto projeto, estava a evoluir muito. E este clube, o Braga, é realmente grande. A minha equipa favorita é sempre a minha equipa. E será sempre assim.

Há uma foto sua no campo do Hamburgo com muita gente no estádio. Como se sentiu ao ver todas aquelas pessoas a apoiar a sua equipa que estava na 2.ª divisão?
Estávamos a jogar a primeira partida dos quartos de final, estavam quase 20 mil pessoas no estádio. Estava muito concentrado no trabalho. Ganhámos, chegámos à semifinal, depois jogámos a semifinal perante quase 60 mil pessoas. Foi incrível. E disse para mim: nos primeiros três minutos, vou aproveitar. Então fiquei a olhar para as bancadas. Depois o meu adjunto veio por trás de mim e disse-me: tem de treinar.
Gostei muito desse jogo. Foi um pouco diferente de um jogo masculino. Acho que o futebol feminino é diferente. Quem assiste sabe e sente que é diferente por causa da trajetória das jogadoras, pelo esforço que dedicam. Por exemplo, o ambiente nas bancadas é sempre um pouco mais familiar. Nesse jogo, o ambiente era muito agradável, porque era um clássico na Alemanha, jogámos contra o Werder Bremen. Normalmente, os adeptos homens envolver-se-iam em confrontos. Ali foi pura harmonia. Gostei muito desse momento.

E as suas jogadoras estavam muito nervosas ou simplesmente estavam a apreciar a atenção que recebiam?
Já estávamos habituados a jogar neste tipo de estádios, já tínhamos disputado os quartos de final lá perante 20 mil pessoas. E tínhamos jogado alguns jogos anteriores para um público de 5 mil, 6 mil pessoas. Diria que não era algo completamente novo. 

Em Portugal, não há tanta gente a assistir aos jogos.
Quando penso no Braga, vi um potencial enorme. Quando se olha por esta janela e se vê o que se vê, percebe-se que isto também não existe na Alemanha.

Vocês não têm isso na Alemanha?
Não.

Nem mesmo o Bayern…
É diferente. Aqui construíram um estádio para a equipa feminina. E este foco numa equipa feminina é realmente raro na Alemanha. Dar esta oportunidade à equipa feminina de trabalhar nestas condições, para criar uma boa base, para construir algo grandioso. E foi por isso que vim para aqui. Quero trabalhar nos detalhes e quero trabalhar nestas condições para ver, no futuro, o que podemos alcançar. Este estádio é, para mim, o símbolo de Braga e também do futebol português. 
Queremos investir para obter resultados no futebol feminino português. E penso que é muito bom dar também à equipa feminina um espaço próprio. Porque, como podem ver, a academia de jovens tem um espaço próprio. Os homens têm uma casa e nós também temos uma casa, o que demonstra todo o valor disso. E isso muito bom. E é excepcional, diria eu.

Marwin, o que é, para si, um bom jogo? 
Para mim, pessoalmente, um bom jogo é aquele em que temos a posse de bola. Um jogo em que criamos muitas oportunidades de golo e ataques. E marcamos golos e não sofremos nenhum.