Em criança, jogava à bola com o primo, eram os dois da mesma idade, sentia uma paixão enorme pelo futebol, não desistiu, os pais acabaram por lhe fazer a vontade. Ter jogado com rapazes deu-lhe um grande arcabouço, na agressividade, na velocidade. Esteve sete anos no Sporting, a época passada no Torreense, agora joga no Ouriense e confessa que a experiência mais recente está a ser muito boa. Aos 20 anos, está a fazer o que gosta e a aprendizagem tem sido imensa.
Lara António admite que refila bastante, nos jogos, nos treinos, não gosta de injustiças, sabe que às vezes não é de propósito, que são testes feitos às jogadoras. Ainda assim, não consegue conter-se e reconhece que tem de controlar essa postura. Assiste e vive o crescimento e afirmação do futebol feminino com satisfação, recorda os tempos em que nem sequer sabia que havia equipas seniores ou que era possível chegar à Liga dos Campeões. Vê muito talento e inteligência nas jogadoras portuguesas e outras virtudes nas atletas estrangeiras.
Como surge esta paixão por jogar futebol?
Sempre joguei por causa do meu primo, ele tem a mesma idade que eu, praticamente um mês de diferença. Eu sempre quis jogar futebol, os meus pais nunca queriam, e a minha madrinha, a mãe do meu primo, conseguiu convencê-los. Joguei com rapazes durante quatro anos e depois vou para o Sporting.
Para uma equipa feminina?
Sim.
Esse percurso de jogar com rapazes deu-te uma estaleca diferente?
Prefiro sempre jogar com os rapazes. É diferente agressividade, velocidade, tudo.
Ajudou-te a estar em campo em termos de posicionamento?
Sim.
O que é que o futebol te tem dado?
De aprendizagem, a comunicação, lidar com muita gente ao mesmo tempo. Como há muitas jogadoras estrangeiras, às vezes, já nem falamos português, é só inglês. Até agora tem corrido tudo bem para mim, pelo menos, até hoje. Estou muito feliz a jogar futebol.
E como és dentro de campo?
Refilona.
Muitos cartões?
Não, isso não. Mas respondo muito, falo muito, reclamo muito.
Nos treinos, refilas com o treinador?
Imenso, imenso. É um problema que tenho de controlar muitas vezes.
Questionas processos, métodos e táticas?
Também, mas é mais porque odeio injustiças. Às vezes, eu sei que é de propósito, às vezes, não é de propósito, é para nós estarmos preparadas. Mas é uma coisa que me entra na cabeça e não consigo lidar muito com isso. Se vejo que estou a ser prejudicada, eu compreendo, mas não consigo, tenho de reclamar, e é sempre assim. Já nos jogos, tenho de me controlar imenso.
Já estava um bocadinho fora da cabeça do Sporting, precisava de sair para ver se respirava de novo, se me apetecia jogar futebol de novo.
Lara António
O futebol feminino está a crescer de uma forma pensada e estruturada?
Sim, agora mais. Antes, não, jogávamos futebol e nem sabíamos que já havia equipas seniores, que havia essa visibilidade. Não tínhamos essa noção de que já havia uma equipa sénior, que tínhamos de chegar lá. Há pouco tempo é que também descobrimos que podíamos ir à Liga dos Campeões e tudo mais.
Íamos crescendo e éramos sempre as mesmas. No Sporting, em sete anos, cresci sempre com a mesma equipa, as mesmas jogadoras, umas saíam e outras vinham, mas foi sempre a mesma base, os mesmos treinadores. Então fomos habituadas a isso.

E como foi sair da tua zona de conforto? Foi complicado ou a adaptação correu bem?
Na altura em que saí, já estava um bocadinho fora da cabeça do Sporting, precisava de sair para ver se respirava de novo, se me apetecia jogar futebol de novo. E a melhor coisa que me aconteceu foi ter ido, no ano passado, para o Torreense.
O Ouriense manter-se-á na 2.ª Divisão e descem várias equipas. À medida que se vai subindo, a competitividade aumenta?
Acho que não porque quando se chega a um certo ponto, são as melhores que já lá estão. Neste caso, na 2.ª Divisão, saindo cinco equipas, que são as melhores para estar aqui – não que as outras que vêm não sejam melhores, mas se estão um bocadinho abaixo é porque não são tão boas – tirar logo cinco equipas e virem cinco, que supostamente são mais fracas, é mais um ano que as mesmas ficam e as mesmas descem. Foi o que aconteceu no ano passado. As que subiram, acabaram por descer outra vez porque a diferença, parecendo ou não, ainda é muito grande, de equipa, de qualidade.
E como é que está o ambiente no balneário?
Bom. Acho que é a primeira vez, em tantos anos, que vejo um balneário tão unido. No ano passado, no Torreense, nas Sub-19, havia umas meninas mais novas, mais velhas. No Sporting, grupinhos aqui, grupinhos ali. Aqui, se é para ir, vamos todas. Vamos almoçar, vamos todas, vamps jantar, vamos todas. E nunca me tinha acontecido isso, pelo menos até hoje. Vamos sair, vamos todas. Arranjamos sempre carro para todas.
Vivemos todas juntas, só há uma jogadora que não vive connosco. Ou seja, estamos 24 horas sobre 24 horas, temos de nos dar bem. E já aprendemos a lidar umas com as outras fora do futebol e dentro do futebol.
Enquanto a jogadora portuguesa tem a inteligência, as outras têm o resto, agressividade, agilidade.
O facto de haver jogadoras estrangeiras na equipa é uma mais-valia, ajuda a perceber diferentes contextos, diferentes formas de abordar o jogo?
Sim. Por exemplo, na nossa equipa, e em todas as equipas em que já tive, agressividade não é uma coisa que a jogadora portuguesa tem. Agora, ultimamente, tem aparecido mais, mas raramente tem. E aqui as estrangeiras, por exemplo, as dos Estados Unidos, quando vêm, é outro mundo, outra agressividade. Fora do campo está tudo bem, mas dentro do campo não interessa quem é, elas vão com tudo e nós temos de saber lidar com isso. É a mesma coisa com as brasileiras, têm muita agilidade e a agressividade também, é do outro mundo. Enquanto a jogadora portuguesa tem a inteligência, as outras têm o resto. E nós, por causa disso, sabemos bem distinguir as coisas.
Também há talento na jogadora portuguesa?
Sim, muito.
Qual o teu maior sonho no futebol?
Já tive mais sonhos, acho que agora é conseguir estabilizar apenas com o futebol, não dá para viver, mas dá para levar a sério e para levar durante muitos anos. Estabilizar é o maior objetivo de qualquer jogadora portuguesa na 2.ª Liga. De resto, tem de haver sempre um segundo plano.
Lara, o que é, para ti, um bom jogo?
Nem sempre é ganhar. Nem sempre é preciso ganhar para ter um bom jogo. Se lutaste, se deste 101% até ao fim, se consegues perceber ok, não conseguia dar mais, não ganhámos, não foi por nossa culpa, simplesmente não conseguimos mais, demos tudo. Se saímos contentes, se toda a gente percebeu que demos o máximo, é um bom jogo. Claro que ganhar é sempre bom, é o que nós queremos, mas, às vezes, não dá.



