Há um sonho recorrente de que se lembra regularmente quando acorda. Está na Champions, não na bancada, mas como jogadora ou como treinadora. Esse é o sonho maior, ter essa experiência no grande palco internacional. Kika Carvalho começou a jogar futebol nas brincadeiras com o irmão e com os rapazes na escola. Até que se tornou uma coisa mais séria, entrou num clube, percebeu a dimensão do futebol feminino. Tem 22 anos e está no Gil Vicente pela segunda época.
Como capitã, está atenta à equipa, preocupa-se com as colegas. Admite que é um pouco perfecionista, vê os seus jogos para perceber onde pode melhorar, o que afinar, o que corrigir. A família é o maior suporte, sempre a seu lado, sempre presente. “Desde o início que nunca puseram nenhuma barreira ao facto de eu começar a jogar e desde aí que sempre me acompanharam”, refere. Um bom jogo, para si, é uma partida bem disputada, competitiva, intensa.
Como capitã da equipa, o que gostas de conversar com as tuas colegas, o que gostas de incutir? Como é que te vês nesse papel?
Esse papel tem muito de tudo, desde as conversas mais insignificantes sobre tudo, roupa, o que fizeste hoje, o que é que comeste, como é que dormiste, como é que te estás a sentir, porque é que estás nervosa, como te posso ajudar. Esse papel acaba por ser muito natural, tendo em conta que gosto das pessoas que estão à minha volta, gosto de me preocupar com elas.
A equipa é quase toda nova. Tem sido um desafio para ti, como capitã e como jogadora na segunda época?
Sim, é verdade, creio que ficámos cinco ou seis do ano passado. Por isso, é um grupo novo, mas a receção foi muito boa, acho que o pessoal se integrou bem, temos algumas jogadoras estrangeiras, o que podia, às vezes, criar algumas dificuldades de linguagem, mas não vejo isso, vejo toda a gente bastante unida.
Quais as expectativas para esta época? Subir para a Liga BPI?
Gosto de acreditar que ninguém está em projetos sem objetivos. E o nosso é efetivamente esse. Não faz sentido estar a trabalhar todos os dias e não sonhar alto. Acho que podemos sonhar alto até porque vejo qualidade e capacidade para isso.
Como é que começas a jogar futebol? Com que idade, como surge esta paixão?
Comecei a jogar futebol com 4 anos num clube, mas não me lembro de quando é que comecei a jogar futebol. As minhas fotos no infantário são todas no campo de futebol, foi sempre muito natural. Tenho dois irmãos, uma irmã e um irmão e, desde pequena, principalmente com o meu irmão, sempre joguei muito à bola cá fora, na rua. No infantário, ia sempre com os rapazes para o campo. O meu irmão jogava e eu, em vez de ficar na bancada só a vê-lo, também comecei a ter aquele bichinho e a querer começar a treinar. E acabou por surgir.
Quando é que se torna uma coisa séria? Quando é que dizes que é isto que realmente queres fazer?
Percebi que seria algo sério, quando houve a minha transição. Jogava no São Martinho, clube da minha terra, e quando passei, com 15 anos para o Braga, até àquele momento eu nem sequer fazia ideia de que havia futebol feminino. Tinha ido uma vez ou outra à seleção distrital do Porto e era isso. Para mim, o futebol era só uma diversão. Quando chego ao Braga, é quando começo a perceber realmente que há exigência, que há muito mais para além de apenas o futebol e de estar dentro do campo.
Sou uma jogadora de pormenor, gosto de perceber em que errei e procurar soluções com as minhas colegas.
Kika Carvalho
Como tens visto o crescimento do futebol feminino? Notam-se melhorias?
Sim, por exemplo, o Gil Vicente é um caso disso. Estive cá na época passada, e dessa época para esta já sinto uma diferença bastante grande. Nos últimos anos, mesmo no Braga, onde estive 5 anos, fui sentindo, de ano para ano, melhorias. No início, se calhar, não tínhamos um nutricionista, no segundo ano já tínhamos, psicóloga começa a aparecer, ginásio. Ou seja, ao longo dos anos fui sentindo na pele um bocadinho essa evolução.

Estás apenas dedicada ao futebol, neste momento?
Acabo por estar só dedicada ao futebol, no sentido em que tirei uma licenciatura e estou a tirar um mestrado neste momento. Fiz o nível 1 de treinadora na licenciatura e estou a fazer o nível 2 no mestrado. É um mestrado em Treino Desportivo em Futebol.
Fora do treino e do jogo, lês coisas sobre o futebol, vês jogos da seleção feminina, estás sempre em cima do que acontece?
Já estive mais, agora sinto necessidade de me desligar um bocadinho. A nossa vida é futebol todos os dias, a minha vida na faculdade era futebol todos os dias. Ou seja, costumava dizer que passava 24 horas do dia a falar em futebol, às vezes até sonhava com futebol.
Hoje tento me desligar um bocadinho mais, mas há coisas que não consigo não ver. Portanto, há sempre, por semana, dois, três jogos que vejo e tenho sempre acompanhar também para o meu crescimento pessoal.
O meu maior sonho é presenciar um jogo de Champions, não como adepta, mas como parte integrante dele.
Tu vês os teus jogos, ou seja, como jogas?
Sim, todos.
És perfeccionista? Como és como jogadora?
Sou um bocadinho. Aproveitava as aulas que menos gostava da faculdade para ver os meus jogos, passava as aulas no computador, as pessoas deviam achar que estava a apontar coisas, mas estava a fazer cortes dos meus jogos e tudo mais porque sinto que sou provavelmente uma jogadora mais detalhista, ou seja, mais de pormenor. Gosto de ver, de perceber em que é que errei, o que é que podíamos ter feito melhor em coletivo, onde é que posso ajudar as minhas colegas, em coisas que vejo que elas têm dúvidas, tentar procurar as soluções juntamente com elas.
Tens algum sonho recorrente com futebol de que te lembres regularmente?
Sim, a Champions. Já me vi como jogadora e já me vi como treinadora, por isso não sei, acho que de uma maneira ou de outra vou ter de lá chegar. Mas acontece regularmente. O meu maior sonho é presenciar um jogo de Champions, não como adepta, mas como parte integrante dele.
A tua família é o teu maior suporte?
Sim, a minha mãe e o meu pai. Mais a minha mãe, porque éramos três filhos e não dava para os dois irem a tudo aos três. A minha mãe nunca perdeu um jogo meu, nunca, seja onde for. Estão presentes em todos os jogos, sempre me apoiaram, sempre me disseram que as decisões sou eu que as tomo, sou responsável por elas. Sempre me apoiaram muito. Desde o início que nunca puseram nenhuma barreira ao facto de eu começar a jogar e desde aí que sempre me acompanharam.
E como é a massa dos adeptos do Gil Vicente?
São adeptos presentes, gostava que fossem mais, em maior quantidade. Temos algumas pessoas que acompanham sempre, principalmente os nossos familiares e amigos, e mesmo adeptos do Gil Vicente conseguimos ter sempre aquele grupinho que é importante.
Kika, o que é, para ti, um bom jogo?
Para mim, um bom jogo, em primeiro lugar, é ganhar. A vitória é sempre algo muito importante. Mas, acima de tudo, é um jogo que seja bem disputado, um jogo competitivo, que nos desafie, e com intensidade.



