Evy Pereira começou a jogar futebol com seis anos na ilha de Santiago, em Cabo Verde, onde nasceu. Era a única menina numa equipa de rapazes. Só aos 14 é que integrou uma equipa feminina. Em 2014, veio para Portugal para jogar no Ouriense. Tem 31 anos e um vasto percurso, jogou no Ouriense, Benfica, Braga, Racing Power. Besiktas, na Turquia, foi o seu último clube antes de voltar ao Valadares Gaia, onde tinha estado em 2015. “Uma boa filha à casa torna”, comenta com um grande sorriso.
Veste as cores de Cabo Verde, joga na seleção do seu país, em três jogos marcou três golos. Um sonho tornado realidade, um orgulho imenso. Já passou por uma grave lesão, teve de ser operada aos dois joelhos. A recuperação não é só física, é sobretudo mental, refere. Ultrapassar os obstáculos emocionais, lidar com uma longa paragem, a incerteza de voltar ao topo, de ser a jogadora que era. É difícil, mas não é impossível. Evy é a prova disso.
Um regresso ao Valadares Gaia.
Sim, é a minha volta à casa. A primeira vez que joguei aqui foi em 2015. Uma boa filha à casa torna.
E como está a ser?
Está a ser incrível.
A superar as tuas expectativas?
Sim. Valadares é uma casa que eu conheço, a equipa é muito acolhedora, há algumas jogadoras que conheço, tem muitas jogadoras novas. Também conheço a estrutura e isso facilita muito.
Estás em Portugal desde quando?
Desde 2014.
Vieste para jogar futebol?
Sim, vim, e a minha vinda, em 2014, foi para o Ouriense. Foi a minha primeira vez aqui em Portugal. Joguei uma época no Ouriense e na época a seguir vim para o Valadares.
E depois umas voltas, estiveste em várias equipas.
Sim, muitas voltas.
Quais as tuas expectativas para o Valadares esta época? No fim do campeonato, ficará numa boa posição?
Sim, nós queremos estar nos melhores lugares, queremos estar lá em cima, a disputar, porque somos uma equipa com muita qualidade, a nossa equipa técnica também é muito competente. A estrutura trabalha para dar todas as condições às atletas para que possamos trabalhar para os nossos objetivos, que é mantermo-nos lá em cima.
Com uma longa experiência no futebol feminino português, como analisas este crescimento?
Cresceu muito. A diferença é muita, por exemplo, a nível de condições. Hoje consegue-se viver minimamente dentro daquilo que é a realidade do futebol português, há 10 anos não era muito possível. Agora as pessoas também estão a aderir mais, as empresas também apoiam, patrocinam, e isso faz muita diferença no que é o nosso crescimento.
Espero que continue nesse ritmo, nesse sentido, porque o futebol feminino merece tudo isto que está a acontecer.
Queremos estar nos melhores lugares, queremos estar lá em cima, a disputar, porque somos uma equipa com muita qualidade, e a nossa equipa técnica também é muito competente.
Evy Pereira
Na época passada, estavas a jogar no Besiktas, na Turquia. Como era o futebol lá?
Também é uma experiência diferente. Outro país, outra cultura, outra religião, outra competição. Gostei muito, foi uma experiência para acrescentar mais à minha experiência e trazer outros pontos para o meu futebol. Foi uma experiência muito positiva, gostei muito.

És uma avançada com faro de golo?
Digo que sim, mas também acho que o que me caracteriza mais é a minha capacidade de assistir. Também gosto de marcar, todas as atletas gostam de marcar, mas acho que assistir é um ponto em que me destaco.
O que mais aprecias no jogo jogado?
Gosto muito da parte da velocidade do jogo, gosto muito da tática do jogo e gosto muito da compreensão e da leitura dos momentos do jogo.
Voltando ao passado, começaste a jogar com que idade futebol em Cabo Verde?
Comecei com 6 anos de idade.
Com rapazes?
Com rapazes. Na altura, não havia número suficiente de miúdas para jogar, estava sozinha no meio dos rapazes da minha zona, ainda não tinha ido para nenhuma escola de futebol, só fui a partir dos 7 anos e também era com rapazes. Até os meus 14, quando comecei a jogar com raparigas, jogava com rapazes.
Gosto muito da parte da velocidade do jogo, da tática do jogo e da compreensão e da leitura dos momentos do jogo.
Estás na seleção de Cabo Verde.
Estou, estou, estou.
Como tem sido viver este sonho tornado realidade?
É uma experiência fantástica. Em Cabo Verde, a seleção começou em 2018, somos novatas nisso. O futebol também não é assim tão evoluído, há muitas dificuldades, é normal, estamos nesse processo. O acesso ao CAN veio também dizer muito sobre aquilo que é o nosso talento, a nossa capacidade, o nosso esforço, o acreditar, o trabalho árduo.
Neste momento, estou maravilhada com essa conquista porque eu vi, senti e vivi aquele momento, pensando na geração passada que, infelizmente, não teve a oportunidade, mas também pensando na geração futura que agora, se calhar, é mais fácil conseguir dar outros passos.
Três jogos e três golos na seleção?
Sim. A seleção começou em 2018, mas, infelizmente, eu estive lesionada nos dois joelhos, foi operada aos dois joelhos. O meu primeiro jogo foi um amigável, no Luxemburgo.
Duas operações ao joelho. As lesões fazem parte do futebol, é certo, mas como se recupera de algo assim?
Principalmente, mentalmente. É uma lesão que tens de amadurecer, fortalecer mentalmente para conseguires dar a volta, se não é muito difícil. Fisicamente, vais lá chegar, ou mais cedo ou mais tarde, passam nove meses, passa um ano, vais trabalhar, vais conseguir. Agora, mentalmente, ultrapassar os obstáculos emocionais, tanto tempo parada, depois, a incerteza se vais voltar ao topo ou não, se vais voltar ao que eras ou não, tudo isto é o mais difícil.
Com um trabalho bem feito da parte mental, conciliando com a parte física, vais conseguindo voltar pouco a pouco e conseguir fazer um bom trabalho.
Tem de vir de dentro, não é?
De dentro, tem de ser uma coisa que vem de dentro.
Evy, o que é, para ti, um bom jogo?
Um bom jogo é um jogo muito bem disputado, com um adversário à altura, para permitir uma competição ao mais alto nível. É um jogo que possas atacar, mas também tens de ter a noção que tens de defender. É um jogo que tens de ler os momentos, que tens de pausar, que tens de acelerar. É um jogo que tens de ter a maturidade emocional para saber quando fazer as coisas e quando também é preciso acalmar. Para mim, um bom jogo passa muito por tudo isso.



