O futebol feminino em Portugal atravessa um período de transição, onde o crescimento mediático e a presença constante em fases finais de grandes torneios internacionais contrastam com desafios estruturais. Com a pasta do futebol feminino na FPF, Sofia Teles tem a missão de equilibrar a ambição de uma modalidade que quer ser profissional com o pragmatismo de quem gere recursos, infraestruturas limitadas e a sustentabilidade dos clubes a longo prazo.
A diretora da FPF faz um balanço do primeiro ano da Liga BPI com apenas dez equipas, aborda as críticas à escassez de jogos e explica por que razão a Federação prefere a cautela à pressa no que toca à profissionalização. Da nova competição nos escalões de formação (Sub-17) ao debate sobre as condições de maternidade e infraestruturas, Sofia Teles abre o jogo sobre o plano estratégico da FPF, que pretende fixar as bases para que o sucesso das seleções e dos clubes não seja apenas um momento passageiro, mas um projeto consolidado.
Que balanço faz do formato atual da Liga BPI e que critérios a FPF usa para avaliar a sua competitividade e evolução?
Pela primeira vez, ao fim de muito tempo, a Liga BPI está com 10 equipas. Foi o passo que foi entendido em conjunto com os clubes que seria adequado para este momento da competição. Apesar de termos reduzido o número de clubes, a verdade é que o nível competitivo tem vindo a aumentar, ou seja, os desequilíbrios de resultados que vemos na competição ao longo da época têm vindo a diminuir e, portanto, estamos a conseguir ter resultados mais equilibrados entre todas as equipas. O feedback que temos recebido das jogadoras e dos clubes, é que todos os jogos contam. Não há jogos fáceis, é possível perder pontos com qualquer adversário, e isso obriga os clubes a estarem melhor preparados semana após semana. Portanto, nessa vertente, neste momento, estamos satisfeitos com a competição. É algo que nós vamos continuar a monitorizar e a analisar ao longo do tempo. Trata-se do primeiro ano em que a Liga BPI está neste formato e para podermos fazer uma avaliação ponderada das competições é preciso ter alguma estabilidade e percebermos em concreto se isto funciona ou não. Para já, com os indicadores que temos, parece-nos que é uma competição que está atrativa, na medida em que há incerteza nos resultados, há muitas posições em aberto, há muita disputa por várias posições, e isso torna a competição muito apelativa.
Com 18 jornadas entre setembro e maio, faz sentido haver tão poucos jogos num período tão longo? A FPF pondera ajustar o modelo para aumentar o número de jogos?
Quando olhamos para a estrutura competitiva do futebol feminino, temos de ter a consciência que, além da Liga BPI, temos mais três competições ao longo da época: Supertaça, Taça de Portugal e a Taça da Liga, esta última em que competem todas as equipas da Liga BPI. Adaptámos o modelo da Taça da Liga, permitindo que os clubes tivessem mais jogos também nessa competição e garantindo que ao longo da época houvesse competição para todos os clubes e que pudessem estar ativos. Tentamos garantir que houvesse ali algum encadeamento entre competições, que permitisse que os clubes tivessem competição sucessiva ao longo da época. Nenhum modelo está fechado, mas temos de perceber se este modelo funciona ou não. E ao fim de 6 meses parece-nos que é um pouco curto para percebermos se tudo isto está perfeito ou não.

Está tudo em aberto para a próxima época ainda em relação ao modelo competitivo?
Os formatos ainda nem foram publicados. Em princípio, os modelos continuarão os mesmos, até porque as competições requerem alguma estabilidade para conseguirmos ter dados fiáveis. Se estamos todos os anos a mudar os formatos de competições, nunca conseguimos perceber se funciona ou se não funciona, se funciona bem ou se funciona mal. É possível alterar aquilo que é o formato, mas precisamos de ter alguma estabilidade para podermos analisar.
Se estamos todos os anos a mudar os formatos de competições, nunca conseguimos perceber se funciona ou se não funciona, se funciona bem ou se funciona mal.
Sofia Teles, FPF
Na 2ª divisão percebe-se que o formato equilibra a geografia com a competitividade. Mas, depois, há um play-off. Como que os clubes encaram isto? Não poderá haver uma “zona morta” na Liga BPI, entre aquelas equipas que estão o meio e as que estão no fundo da tabela?
Eu acho que neste momento não há, porque essas posições, seja a posição de descida, sejam as posições de play-off, seja as posições de acesso a competições europeias, estão todas em aberto. Se olharmos para a tabela classificativa, temos várias equipas que podem aceder às posições de competições europeias e temos várias equipas que podem estar em posição de ficar no play-off. E, portanto, é algo que em relação a outras épocas, com este novo formato, isso mudou. Ou seja, tudo está em aberto nesta altura de campeonato. Faltam algumas jornadas para terminar, mas está tudo em aberto até nesta fase do campeonato. Temos tido mudanças sucessivas na classificação de jornada para jornada e isso é positivo.
Relativamente à 2ª Divisão, pode subir um clube ou podem subir três, depende daquilo que é a participação desportiva das equipas. Parece-nos que neste momento é importante que nós tenhamos equipas na Liga BPI que são sólidas e que conseguem cumprir com os requisitos na nossa principal competição. Mas também não queremos tirar espaço a equipas que possam ter projetos interessantes e que queiram estar na Liga BPI, que têm todo o direito de o fazer e de provar o seu valor. Se três clubes subirem à Liga BPI, estamos a falar de três clubes em dez. É um número bastante significativo.
A 4.ª Divisão, mantendo-se uma prova com 70 clubes, o que vai acontecer às equipas que já lá estão e às que se podem juntar? Haverá necessidade de alterar o formato para garantir sustentabilidade e competitividade?
Desta época para a próxima não haverá alteração à competição. A 4ª divisão é o primeiro espaço em que equipas seniores se podem inscrever para competir. E isto acontece porque não temos ainda um número suficiente de equipas para permitir que esta competição seja organizada pelas associações regionais e distritais. Portanto, seja uma competição distrital que depois dá acesso a competições nacionais. Foi estudado anteriormente, aquando da criação da 4ª divisão, se seria benéfico ou não passarmos a organização destes campeonatos para as associações e aquilo que que se percebeu nas conversas que foram tidas, por aquilo que nos foi transmitido também, é que passarmos já essas competições para as associações poderia levar a que alguns projetos deixassem de existir por falta de outros competidores nas suas zonas geográficas. E neste momento, no caso do futebol feminino, temos de ter muito cuidado com as decisões que vamos tomando, porque estamos num momento em que queremos fazer crescer o número de jogadoras e não criar mais obstáculos. A decisão foi tomada na medida de procurar proteger quem já cá estava, garantir que quem está pode continuar a competir, que as jogadoras que lá estão têm espaço onde podem competir. É nosso objetivo a médio prazo e mais rapidamente possível, que essa competição passe a ser organizada pelas associações, tenhamos nós número de equipas suficiente.
Há algumas regiões que têm uma quantidade significativa de equipas, e até equipas que participam na 4ª divisão, mas depois temos outras em que a disparidade é muito grande e as associações são representadas por uma equipa ou por duas equipas, e há aqui uma um desequilíbrio grande. A ideia é que possa vir a ser uma competição das associações que depois dá acesso a competições nacionais. Neste momento, entendemos que não temos ainda número suficiente de equipas espalhadas pelo país todo para garantir que os projetos possam funcionar.
Uma preocupação recorrente é a disparidade de condições (horários, relvados sintéticos, apoio médico). Que requisitos mínimos e mecanismos de acompanhamento a FPF considera essenciais para reduzir esse fosso?
Estamos atentos a isso e são problemas diferentes em diferentes patamares e com razões diferentes. Na questão dos relvados, isso não acontece só no feminino, acontece também no masculino. Há equipas a jogarem em relvados naturais e a não terem espaços suficientes de relvado natural que permita fazer uma semana completa de. E acontece quer no masculino, quer no feminino. É uma situação reveladora de uma dificuldade de infraestruturas para a prática do futebol no país. Vamos vendo que muitas vezes os horários de treinos são efetivamente mais tardios, que as possibilidades de treinar em horas adequadas são mais difíceis, quer nas equipas seniores, quer nas equipas de formação. É um problema nacional que a Federação Portuguesa de Futebol não consegue resolver sozinha. Temos de pensar globalmente de que forma é que conseguimos que mais raparigas tenham acesso a espaços para poderem treinar, naturalmente com condições dignas e em horários que são condizentes com a sua atividade escolar ou com a sua atividade profissional. É um problema estrutural. Se olharmos para as outras modalidades, isto acaba por acontecer. Os pavilhões estão cheios, os campos de futebol estão cheios e depois, quando queremos garantir oferta desportiva para o público feminino, que até aí era reduzido e pouco participativo, de repente encontramos com o problema dos espaços e dos horários.
Temos de pensar globalmente de que forma é que conseguimos que mais raparigas tenham acesso a espaços para poderem treinar, naturalmente com condições dignas e em horários que são condizentes com a sua atividade escolar ou com a sua atividade profissional.
Tem defendido que a profissionalização do futebol feminino exige um debate muito sério e que não pode ser uma coisa feita do pé para a mão. Qual é que é o caminho realista aqui, o que é que pode mudar primeiro, e em que prazo é que pode mudar?
A profissionalização é um objetivo patente também na apresentação do plano estratégico da FPF. Sabemos que há vários modelos que podem vir a ser adotados, sabemos dos riscos de dar um passo fora de tempo rumo à profissionalização e das consequências que isso pode ter. E não precisamos de ir muito longe, basta olhar para exemplos que tivemos em Portugal de outras ligas profissionais que existiram noutras modalidades e que em determinado momento não tiveram viabilidade e não puderam continuar. O que gostaríamos, no caso do futebol feminino, é que quando dermos este passo, que a liga feminina consiga ter a sustentabilidade necessária para que seja um projeto com futuro, sabendo nós que todas as ligas, ou praticamente todas as ligas que estão a nascer agora, são ligas muito jovens, que também estão a procurar o seu caminho e a procurar as melhores soluções. No panorama internacional há várias dificuldades que acabam por ser transversais, e também aí estão a procurar um caminho de forma a que não venham a existir recuos. Dizermos que queremos que isto tudo seja profissional, obviamente que também é o nosso objetivo, mas queremos fazê-lo de uma forma que tenha futuro e não que seja alguma coisa que dizemos: fizemos isto, e agora vamos ver se corre tudo bem.

Dentro desse plano estratégico da Federação Portuguesa de Futebol prevê-se, por exemplo, melhorar as transmissões, os horários de jogos, a promoção e a experiência do adepto? O que é que se pode melhorar neste contexto?
Um dos pilares que temos pré-definidos tem a ver com a visibilidade e a promoção do futebol feminino. É verdade que estamos a conseguir mais espaço nos jornais, nos meios de comunicação social, nas redes sociais e através de páginas dedicadas ao futebol feminino e que ajudam muito a promover, mas ainda não o suficiente. O espaço mediático que o futebol feminino tem ainda não é suficiente para conseguirmos atrair mais raparigas a jogar futebol, mostrar que efetivamente as pessoas estão interessadas, criar interesse para que as pessoas sigam o futebol feminino e, consequentemente, termos mais patrocinadores e mais parceiros para os nossos clubes. Quanto mais espaço mediático e mais visibilidade tiver o futebol feminino, a Liga BPI e as seleções nacionais, haverá um efeito catalisador naquilo que são as restantes áreas. E essa é uma das nossas preocupações, conseguirmos aumentar essa visibilidade, trabalhar com os clubes no sentido que as transmissões televisivas sejam mais interessantes, mais apelativas, para que consigam ter mais público nos seus jogos, porque é importante atrairmos mais pessoas também para verem jogos de futebol feminino. Queremos que a experiência dessas pessoas seja positiva, que as faça querer regressar aos jogos. O público do futebol feminino é bastante diferente do público masculino. Tendencialmente são mais famílias, têm mais crianças, têm pessoas também com mais idade e com outro perfil, e nós podemos aproveitar esse outro público que não é concorrente com o público que os clubes já têm na sua massa associativa para fazer crescer o espaço de ação também no feminino.
Que políticas ou boas práticas pode a Federação Portuguesa de Futebol generalizar para que as jogadoras possam ser mães com mais segurança e mais apoio?
Julgo que as jogadoras já o podem fazer com segurança e com apoio. Os requisitos que a FIFA impõe estão adotados na totalidade pela Federação Portuguesa de Futebol e consequentemente por todos os seus clubes. Agora, há sempre espaço para podermos permitir que as jogadoras que venham a ser mães tenham condições especiais no regresso à competição, no espaço que têm à volta das suas equipas, seja nas seleções nacionais, seja ao nível dos clubes. E quando falamos de jogadoras, acho que é importante também não nos esquecermos de quem está também à volta, as treinadoras, o staff. Os nossos clubes têm políticas e têm também planos para garantir que as jogadoras o podem fazer com outras condições para além daquelas que são os requisitos mínimos. Um dos debates que nós queremos ter com os clubes e que gostaríamos de vir a desenvolver no futuro é pensar noutro tipo de medidas que podem dar ainda mais garantias às jogadoras ou ainda mais tranquilidade no momento de decidirem se querem ou não ser mães.
No capítulo do futebol de formação, a FPF anunciou a criação do campeonato Sub-17? Como é que vai funcionar em termos de critérios de acesso, número de equipas, formato competitivo e calendário? Que objetivos pretendem alcançar, por exemplo, nos primeiros anos?
A Liga Sub-17 vem responder a uma lacuna que tínhamos nos quadros competitivos e no percurso de formação das nossas jogadoras. É uma liga que é para avançar já na próxima época. Estamos a fechar os critérios de acesso e serão divulgados o mais rapidamente possível também para que os clubes se possam pronunciar e aderir à competição. Esta Liga terá um número mais reduzido de clubes que serão convidados a participar. Terá subidas e descidas dos campeonatos distritais, precisamente porque sabemos que é aí que está o grande foco de atuação das nossas associações, que têm feito um trabalho significativo para fazer crescer o número de praticantes da formação. Criamos um espaço onde essas jogadoras que chegam a esse patamar possam conseguir dar um salto para um campeonato nacional, onde podem encontrar um contexto competitivo diferente daquilo a que estão habituadas nos seus campeonatos distritais. Queremos que as jogadoras sintam que têm um percurso, um caminho, que há uma competição à qual podem aspirar e que os clubes tenham também esse espaço de formação, que muitas vezes acabava por estar um pouco perdido, um pouco desacompanhado e que às vezes obrigava a que as jogadoras tivessem de subir um ou mais escalões de competição para que tivessem uma oportunidade competitiva que fosse adequada ao seu processo evolutivo.
Queremos que as jogadoras sintam que têm um percurso, um caminho, que há uma competição [Sub-17] à qual podem aspirar e que os clubes tenham também esse espaço de formação.
De que forma é que a consolidação das seleções jovens e também das competições de formação nacionais estão a influenciar os clubes e os jogadores, nomeadamente ao nível da retenção, da formação e da transição para sénior?
As seleções funcionam em total harmonia com os clubes. A verdade é que as jogadoras passam a grande maioria do tempo de formação nos clubes e a espaços, ao longo da época, vão sendo chamadas à seleção. O espaço de seleção deve ser encarado como de elite, onde podemos selecionar as jogadoras que consideramos que estão no melhor momento. E é importante que exista este espaço, não só para motivar as jogadoras, mas também para lhes permitir que estejam expostas a contextos diferentes daqueles que vão encontrar no dia a dia, naquilo que são os passos dos clubes. Também lhes permite ir crescendo em termos competitivos, em termos mentais e de resiliência e de confiança. E isto depois tem reflexos quando regressam aos clubes, naturalmente que as ajuda no seu processo evolutivo. Felizmente, mais uma vez muito fruto do trabalho que tem sido desempenhado pelos clubes, as seleções nacionais de formação têm conseguido estar presentes em campeonatos da Europa. Seja de sub-17, seja de sub-19. E isso para nós são momentos que são muito especiais, porque permitem às nossas jogadoras terem um contexto de competição completamente diferente. A nossa presença no Campeonato da Europa da sub-19, que nos qualificou para o Mundial de Sub-20, onde vamos estar pela primeira vez, foi algo que nos agarrou a todos. A performance das jogadoras foi melhorando e foram atingindo outros patamares, e a verdade é que nós vimos o público interessado naquela seleção. Estavam ali a fazer história, conseguiram chegar a uma final, a jogar mesmo bom futebol, a terem resultados muito positivos. Isto ajuda naturalmente a fazer crescer o futebol feminino, a motivar mais jogadoras a estarem nas seleções.

O Mundial do Brasil é já no próximo ano, uma competição onde Portugal quer estar. Quais são as expetativas da Federação Portuguesa de Futebol?
A Federação tem investido muito no futebol feminino nos últimos anos, vai continuar a fazê-lo, é um dos nossos pilares de investimento no plano estratégico. É bem claro que a aposta no feminino, seja no futebol, no futsal, no futebol de praia, tem uma grande importância para nós. Estamos num novo ciclo, um novo momento, a qualificação para o Campeonato do Mundo, e o nosso objetivo obviamente é estarmos presentes na competição. Sabemos que o caminho não é fácil, por vários motivos, é desafiante, mas esta seleção já provou que consegue estar nos maiores patamares e que se vai superando a cada dia que passa.



