Flávia, Lourosa: “Não podem simplesmente dizer que as mulheres não sabem ou não são intensas”

Flávia Marinho é polivalente, joga em várias posições, tanto é médio ofensiva, como ponta de lança, extremo ou lateral da equipa do Lusitânia de Lourosa, na 4.ª Divisão. Está onde é preciso. É uma capitã calma e uma jogadora atenta aos detalhes. Trabalha e joga, faz 50 minutos para cada lado para treinar três vezes por semana, dias em que entra em casa já depois da meia-noite.

Flávia Marinho, Lourosa
Fotos: Maria João Gala/Magriça

Flávia Marinho começou a jogar futebol com 12 anos numa equipa sénior em Felgueiras. Passou por vários clubes, está no Lusitânia de Lourosa há duas épocas. Sofreu duas roturas de ligamentos, foi operada aos dois joelhos, não desistiu, recuperou, e voltou ao futebol. A paixão perdura. Tem 31 anos, é jogadora, e trabalha como secretária numa empresa de calçado. 

As condições para a prática da modalidade melhoraram com o passar dos anos. Flávia, que jogou em pelados, lembra isso às jogadoras mais novas para que aproveitem as oportunidades, os meios, os recursos à disposição. Dentro de campo, é uma jogadora que gosta de surpreender e o amor ao futebol dá-lhe energia, força e resistência. Aos comentários que escuta que o futebol feminino não é intenso, aconselha a ver antes de falar. 

Como está a ser a experiência aqui no Lusitânia de Lourosa, nesta tua segunda época? 
Está a ser boa. Acho que construímos um bom grupo. O treinador falou-me do projeto, já conhecia algumas jogadoras fora do futebol, também foram elas que me motivaram a vir, e isso também fez com que criássemos um bom grupo para poder lutar. 

Jogas e trabalhas. Como geres o tempo? É preciso ser bastante disciplinada?
Sim, admito que nem sempre é fácil. O que me motiva é gostar de futebol. Sou de Felgueiras, faço cerca de 50 minutos de viagem para cá e 50 para lá. 

Três vezes por semana? 
Três vezes por semana fora os jogos aos fins de semana. Chego a casa sempre depois da meia-noite, é inevitável. E já são alguns anos a fazer isto. Comecei a jogar lá, em Felgueiras. 

Com que idade? 
Tinha 12. Já jogo futebol há 19 anos. 

Começaste a jogar com rapazes?
Não, com seniores, com 12 anos jogava numa equipa sénior. Basicamente, fui descendo no país, comecei em Felgueiras, Freamunde, Boavista, Ovarense, Feirense e agora Lourosa. Se não fosse o gosto pelo futebol, se calhar já não jogava pelo desgaste físico e mental das viagens. Tenho um dia de trabalho e tenho de arranjar força para fazer essas viagens e chegar aqui com vontade e força para jogar. 

E onde vais buscar essa energia, Flávia?
Ao gosto de jogar. Uma pessoa olha e diz, lutaste tanto, enquanto tiveres força e te sentires bem vai porque, infelizmente, o futebol não dura a vida toda, chega a uma altura em que se tem de parar. 

O que mais aprecias no jogo jogado? 
O futebol em si, os detalhes, se calhar pelas minhas características enquanto jogadora. Sou uma jogadora que gosta muito de tentar ler o jogo e fazer diferente daquilo que as pessoas estão à espera que seja feito. Então estou muito atenta aos detalhes e tento ser um bocado imprevisível.

 

Se não fosse o gosto pelo futebol, se calhar já não jogava pelo desgaste físico e mental das viagens.

Flávia Marinho

És uma jogadora criativa? 
Sim. Às vezes, noto que elas estão à espera de que eu vá para aquele lado e eu tento ir para o outro para também causar aquela surpresa. 

Como capitã, sentes que tens uma responsabilidade acrescida? És uma voz de comando dentro do campo e no balneário? 
Sinto que olham para mim um bocado como uma referência, pelo sacrifício e por todas as coisas que tento também transparecer. Já fui operada duas vezes aos joelhos, rotura de ligamentos. A primeira recuperei em cinco meses. O médico disse-me que estava pronta, mas que não me podia dar alta. Aos seis meses, voltei e parecia que nem tinha acontecido nada. A segunda já foi mais difícil, custou a aceitar e demorei um bocadinho mais. Mesmo assim, tinha aquela vontade. Então acho que elas olham para mim como força, resiliência. Acho que é um pouco isso. Ao contrário, por exemplo, da Eli, que é mais coração na boca, eu sou mais calma, tento levá-las mais pela calma e pela tranquilidade. 

Estão na fase de subida e só sobe uma equipa. Estão motivadas?
Sim, tem de ser. Se não tivermos motivação, nem vale a pena ir. É difícil, claro que sim, e são muitas equipas boas e capazes de lutar por esse lugar. Mas se não houver aquela vontade, aquele 1%, não vale a pena ir. Por muito difícil que seja, também são os jogos que dão mais pica a jogar e a disputar.

Como vês o crescimento do futebol feminino? Tem feito um bom caminho?
Sim, sim. Quando eu comecei a jogar, já faz algum tempo, comecei na terra, nos pelados. Olho e digo quem me dera, quando comecei, ter as oportunidades que hoje têm. É isso que também tento passar às mais novas, aproveitem a oportunidade e lutem por aquilo que querem.

Um bom jogo é aquele jogo rasgadinho, bem disputado, em que não se sabe quem é que poderá vencer. Se houver muitos golos, melhor.

Atualmente, o futebol feminino tem boas condições? 
Acho que ainda pode melhorar, mas sim, tem. Temos visto uma evolução, mais clubes a aparecer, a aderir, a dar oportunidade à mulher. Podia ter sido mais rápido, mas está a evoluir. 

Há respeito pelo futebol feminino?
Está a aparecer. Ainda dizem: ah, o jogo feminino não é tão intenso como um jogo masculino. Ouve-se muito essas coisas e perguntam-me: os teus jogos são assim, não há tanta disputa? E eu digo se vocês querem falar, têm de ir ver. Não podem simplesmente olhar e dizer que as mulheres ou não sabem ou não são intensas. Às vezes, eles até são mais picuinhas, qualquer coisinha, um toquezinho e é uma falta, e nós levamos meia dúzia de toques, somos lutadoras e não desistimos. 

Quais são as tuas referências no futebol?
Neste momento, aprecio muito o Vitinha, pela posição, pela criatividade, pela calma. Atualmente, é um jogador que aprecio muito. 

Flávia, o que é, para ti, um bom jogo? 
Um bom jogo é aquele jogo rasgadinho, bem disputado, em que não se sabe quem é que poderá vencer. Se houver muitos golos, melhor. É aquele jogo mais incerto e que pode ir para qualquer lado.