Mariana Vaz Pinto tem um percurso robusto no futebol, como jogadora e como team manager, uma jornada feita de experiências irrepetíveis, gente, muita gente, jogadoras novas e jogadoras menos jovens, pausas forçadas, lesões nos joelhos, decisões difíceis. Sempre soube que o desporto não é só o que acontece dentro das quatro linhas. Há muitas outras coisas, detalhes importantes: trabalho, compromisso, resistência, dedicação. E amor. Muito amor. Da vontade de partilhar aprendizagens e momentos especiais nasceu o livro digital “O futebol também é nosso.”
De miúda no campo aos bastidores do futebol profissional, tudo contado na primeira pessoa em três capítulos e fotografias nas últimas páginas. Um testemunho honesto e sincero de quem viveu na pele vários contextos num meio que nunca pára, que pula e avança em constante movimento. No ano passado, Mariana Vaz Pinto saiu de team manager da equipa principal feminina do Sporting para partir para a Turquia, acompanhar o namorado. Uma decisão tomada em conjunto, em casal, as despedidas foram feitas e a saída do Sporting foi tranquila. No fim do último verão, surgiu-lhe a ideia do ebook disponível para venda no seu Instagram, basta mandar mensagem.

Dos 6 aos 12, Mariana jogou com rapazes. Aos 12, teria de passar para uma equipa sénior, era miúda, muito nova, os pais não acharam boa ideia jogar com raparigas e mulheres mais velhas que treinavam às 10 da noite. Jogou ténis durante algum tempo para não parar de fazer exercício físico. Tinha 16 anos e o Estoril ligou-lhe para voltar a jogar, entrou na equipa sénior feminina e lá ficou até aos 20, altura em que vai para o Sporting trabalhar como team manager. Pelo meio, as agruras das lesões, foi operada quatro vezes aos joelhos por causa do futebol.
Treinar ao fim do dia, depois dos rapazes, porque só há campo depois deles, já chega
Mariana Vaz Pinto
Foi a primeira mulher team manager numa equipa masculina na 1.ª Liga. Em outubro de 2021, foi a primeira mulher a desempenhar funções de delegada num jogo da 1.ª Liga masculina. “Não tinha noção do impacto que ia ter. Estar numa equipa de rapazes ou numa equipa de raparigas para mim era igual, obviamente que estar numa 1.ª liga masculina tem outro tipo de responsabilidades. Na altura, estava na formação, um erro na 1.ª Liga não é a mesma coisa do que um erro nas meninas que têm 10 anos e, por isso, sabia da responsabilidade, mas não tinha muita noção do impacto que teve”, conta.
Não passou despercebida. Agora, quando olha para trás, e conta tudo isso no livro, sabe que o momento foi importante e gostava que não fosse caso único, que houvesse mais raparigas ou mulheres a fazerem o mesmo. “Existe essa oportunidade, existe esse caminho. Se eu cheguei lá, há muitas que podem chegar também. A coisa que mais quero é voltar a ver alguém no banco de uma equipa masculina.”

Ser team manager de uma equipa significa dias ocupados, muita responsabilidade nos ombros, desafios constantes, lidar com personalidades diferentes. Na época passada, o Sporting estava na Champions, era tudo novo, teve de aprender processos, falar com a UEFA. “Foi super desafiante para mim, mas, ao mesmo tempo, agora que olho para trás, foi uma bagagem gigante que consegui adquirir. Ter uma experiência de Champions foi super importante, tanto para mim como para as jogadoras.” Ser team manager é ouvir, é estar disponível. É complexo, mas bom em termos profissionais e a nível pessoal.
Mariana lembra-se do primeiro treino de Carolina Santiago no Sporting. Foi depois da pandemia, foi buscá-la a casa de uns familiares nas redondezas de Lisboa. “Ela começou o treino e tinha-se esquecido dos óculos no Porto, ou seja, não conseguia ver a bola e eu pensei: ‘Santi, é o teu treino e esqueceste os óculos no Porto?’ Na altura, ela ainda não usava lentes, ainda jogava de óculos.” Também não esquece o treino de captação de Iara Lobo, que agora está no Barcelona. “Na altura, não tínhamos condições para trazer uma miúda de 13 anos do Algarve. E nós tristes, ela vai ter de ir, pode, se calhar, vir cá aos fins de semana fazer torneios. E, de repente, ela diz que o avô vive em Lisboa e que pode vir.”
As seleções mais jovens têm tido um crescimento brutal e hoje já olham nos olhos com as melhores.
O futebol feminino tem crescido, tem dados passos seguros, há mais equipas profissionais. “As bases, as equipas de formação, os clubes estão muito mais sustentados do que antigamente. Antigamente, havia a equipa principal e pronto. Olho para o Sporting, tem uma equipa sub-9, uma equipa sub-11, uma equipa sub-13, uma equipa sub-15, uma equipa sub-17, uma equipa sub-19, uma equipa B, uma equipa A. Os clubes estão a prever o futuro.” Ainda assim, há caminho para desbravar. “Acho que as oportunidades ainda não são iguais no futebol para mulheres e para homens.” Está melhor, reconhece, mas ainda há muito a fazer.
Como, por exemplo, olhar mais para o talento que existe cá dentro. “As seleções mais jovens têm tido um crescimento brutal e hoje já olham nos olhos com as melhores. À seleção portuguesa estão a chegar miúdas mais novas e que estão a conseguir dar resposta. É preciso também dar palco e espaço a essas miúdas que cresceram no futebol feminino. Infelizmente, as mais velhas, como a Jéssica, como a Dolores, como a Carole, não cresceram nesse tempo, não cresceram com uma formação sustentada.”

Jogadoras que nasceram noutro tempo e a quem se deve tirar o chapéu. “É preciso dar muito mérito a jogadoras como a Jéssica, Dolores, Carole, que jogaram com rapazes, jogaram em pelados, em clubes que não lhes davam condições nenhumas e, mesmo assim, conseguirem superar.” “Temos a Jéssica que jogou no Lyon, que jogou nos Estados Unidos, que está a jogar agora na Arábia Saudita e conseguiu fazer o seu caminho de forma brilhante, não tendo as condições que hoje as miúdas conseguem ter”, acrescenta. Mariana vê, portanto, muito talento jovem dentro de campo em Portugal, jogadoras mais novas que precisam de espaço para mostrar que são capazes. Acredita que tudo é possível e que há espaço para todos no futebol. “Houve muitas gerações que tiveram de sofrer para existir o que existe agora”, comenta.
As bases, as equipas de formação, os clubes estão muito mais sustentados do que antigamente. Antigamente, havia a equipa principal e pronto.
Os contratos profissionais no futebol feminino ainda são uma raridade, a parte financeira das transferências não existe, a Liga ainda não é totalmente profissional, o que se reflete na competitividade. “Que retorno é que os clubes têm? Zero. O Sporting joga na Academia, que não tem acessibilidade nenhuma, é muito difícil, mesmo com bilhetes grátis, trazer os sócios.” Mariana olha à volta. “Estou a gostar muito de ver o Vitória de Guimarães, o Porto agora a crescer também, o Gil Vicente, o Rio Ave, que têm equipas sustentadas nas equipas masculinas e que estão a ajudar as equipas femininas a crescer. Mas, lá está, não são profissionais, as miúdas mais novas estudam e vão jogar.”
A questão é que há coisas que custam a mudar. “Treinar ao fim do dia, depois dos rapazes, porque só há campo depois deles, já chega.” A ambição é uma palavra que faz sentido no futebol feminino. “Obviamente que falta sempre alguma coisa e obviamente que quando temos isto queremos mais isto, mas acho que hoje os treinadores têm todas as aplicações para poder trabalhar, as jogadoras também têm o acompanhamento necessário, tanto a nível de nutricionista, de psicóloga, de fisioterapia.” Mariana não esquece o passado, o seu passado, para sublinhar que é preciso dar valor ao que se tinha antes e ao que tem agora.
Mariana coleciona camisolas de futebol, tem muitas, camisolas compradas, camisolas dadas, camisolas usadas em campo. O espaço em casa começa a ser pequeno para a coleção que não é só para ver, também é para usar. Adora vestir essas peças. E continua a jogar quando vem a Lisboa na equipa amadora Favos de Mel para matar o bichinho. Por agora, entre Portugal e a Turquia, a segunda parte do livro está a ganhar forma, Mariana já começou a escrever. Será sobre os seus tempos no Sporting, sobre saúde mental. Temas não lhe faltam.



