Cláudia, Rio Mau: “Nunca tive um vermelho, nem um amarelo, corto a bola sem magoar”

Cláudia Rodrigues joga no meio-campo ou nas alas do Rio Mau, na 4.ª divisão. É a romântica da equipa, pacífica em campo, dá muito valor à união. Se perder e todas tiverem dado tudo, se jogaram bem, sai feliz e realizada do relvado. Voltou ao futebol 20 anos depois de ter arrumado as chuteiras.

Cláudia Rodrigues, Rio Mau
Foto: Miguel Pereira/Magriça

É o seu terceiro ano no Rio Mau, clube de Penafiel, a equipa está agora na 4.ª divisão do campeonato nacional feminino. Cláudia Rodrigues tem 48 anos, joga com miúdas de 20, e essa diversidade deixa-a feliz. Não é a competitividade do futebol que lhe interessa, é a união, é o grupo, é a amizade. Dá-se bem com toda a gente, é tranquila dentro de campo, mas se alguém se porta mal, chama a atenção de forma educada. 

É uma mulher ligada à ficha, é mãe, é gestora, os seus dias são intensos. O futebol permite-lhe descarregar energias, estar com amigas, divertir-se. É muito mais do que uma bola a rolar no campo. É a aldeia assistir aos jogos aos fins de semana, sem se importar com derrotas ou vitórias. Cláudia fala também de igualdade. “Nós não somos iguais aos homens. Não temos de ser iguais aos homens, longe disso.”  

Porquê este regresso ao futebol depois de tantos anos afastada do relvado? 
Já joguei no Rio Mau com a Joana desta equipa. Jogávamos aqui há 30 anos. Quando quiseram criar uma equipa, voltaram a falar comigo, decidimos juntar algumas mais velhas para ver se as miúdas vinham. Isto foi há três anos e cá continuamos. Sou daqui, mas vivo no Porto. Às vezes, faço três viagens cá para cima. Venho de manhã e vou, venho à tarde e vou, e depois ainda venho treinar à noite.

É puxado. Quem corre por gosto não se cansa?  
Como costumo dizer, venho descarregar as energias. Sou um bocadinho ligada à ficha e preciso descarregar. Às vezes, quando vimos sem vontade, chegamos aqui e treinamos melhor. 

Dentro do campo, como és como jogadora? 
Costumam dizer que sou a romântica da equipa. Dou-me bem com todas as jogadoras das outras equipas, todas me conhecem, sabem o meu nome, as árbitras também já me conhecem. Sou muito pacífica, não quero confusões. Nunca tive um vermelho, nem um amarelo, corto a bola sem magoar. Fazer falta? Não consigo. Se a minha jogadora se porta mal, eu chamo a atenção. Já cheguei a dizer que saía de campo se falassem mal umas com as outras. 

O extremo fair play?
Já joguei com miúdas sub-19 de outras equipas que a gente conhece, que são mais barulhentas, e no meio do jogo dizer-lhes que não podem dizer asneiras, que têm de falar bem. As árbitras a rirem-se, eu a chamar a atenção das jogadoras, mas não me marcam falta. Já chamei a atenção, uma vez, a um treinador, disse-lhe que não eram maneiras de falar para uma jogadora. 

Dizer sempre o que se pensa? 
Educadamente. Não podemos dizer tudo o que pensamos. Não, não sou assim. Eu digo educadamente. A gente deve falar quando é para falar bem. Só, mais nada. 

Exigem muita competitividade e isso estraga um bocadinho o futebol, a identidade do futebol, que é o que eu gosto.

Cláudia Rodrigues

Como deve ser o futebol? 
Não é competitividade. Temos uma música que elas fizeram quando eu fiz anos e que diz mesmo isso: eu sou aquela pessoa para quem está sempre tudo bem. Mesmo perdendo, eu saio feliz porque gosto da minha equipa. Muitas vezes, nestes anos, em 11, somos seis ou sete acima dos 40 e jogar com miúdas de 15 anos é difícil. Temos de puxar por elas, não berrar quando algo corre mal. Temos de dizer, ok, deixa lá, ou fazer de conta, para não desmotivar. Sou mãe e sou gestora. Gerir, para mim, passa muito pela parte humana.

Acompanhas o futebol feminino? 
Sim, vou assistindo. Tento não perder muito tempo porque a trabalhar, com um filho, família, às vezes, é mesmo vir treinar. 

Cláudia Rodrigues, Rio Mau

Contente com a evolução do futebol feminino?
Acho que evoluiu muito rápido. É muito competitivo, por exemplo. Exigem muita competitividade e isso estraga um bocadinho o futebol, a identidade do futebol, que é o que eu gosto. O futebol, na realidade, é competitivo. É dinheiro, é isso tudo. 
Sou muito a favor da igualdade, mas nós não somos iguais aos homens. Ponto final. Não somos iguais. Temos características e temos de ir buscar aí a nossa força. Não temos de ser iguais aos homens, longe disso. Nós somos mais sensíveis. Podemos ter uma igualdade, mas uma igualdade no equilíbrio da balança, mas a balança não tem de ter os mesmos pesos de cada lado, as mesmas qualidades, mas sim qualidades diferentes. O homem tem a força, nós temos a inteligência. Nós somos mais inteligentes mais perspicazes, mais atentas.
Não temos de ser iguais aos homens. Por isso, podemos ser mais femininas, podemos ter aquele cuidado na linguagem. Elas são miúdas, elas são jogadoras, eu é que sou mais velha. Algumas chamam-me mãezinha.

Daqui a cinco anos, como gostavas que o futebol feminino estivesse? 
Acho que vai haver uma descida, apesar que há muita formação. Há muita formação e nota-se através de coisas como ter aquele nível, ter aquele número de jogadoras da formação, coisa que não temos, apesar de eu, a Paula e a Joana jogarmos há anos, temos mais formação do que todas as outras, mas não contabilizamos porque, na nossa altura, não era formação, não era federado, não era nada. 
Apesar de haver a formação, como em tudo, são modas. Mas é uma moda boa. Tenho uma prima que agora está no Braga a jogar, é sub-15, e a miúda começou no balé, quis ir para o futebol e fui a primeira pessoa a dizer à mãe deixa-a ir. Começou no Rio Tinto, foi para o Gondomar e agora está no Braga. Ela nasceu para aquilo, no entanto, andou no balé, mas não nasceu para o balé. 
Quando eu era miúda, queria ir para o karaté, nasci no meio de camiões, fui maria-rapaz por natureza.
Acho que vai haver uma descida, se não for por mais nada, por estas implicâncias porque nem todos os clubes têm formação. Aqui temos nos miúdos, mas é uma escola de fora, é um Benfica. Mas nós já tivemos formação no Rio Mau. 

A aldeia quer vir ver o jogo ao domingo, não interessa se ganhamos, se perdemos, se estamos na 3.ª ou na 4ª divisão. Nós somos ainda a coletividade e acho que isso não se deve perder.

Dizem que Penafiel, há muitos anos, tinha muitas equipas femininas. 
Quando jogava, há 30 anos, havia muitas equipas, não eram federadas. Não tínhamos um campeonato nacional, mas havia uma competição entre nós, que era bem disputada, até se puxavam cabelos naquela altura, eram aqueles jogos em que havia rivalidade. Entre Melres e Rio Mau, havia uma rivalidade tremenda no futebol. Havia muitas equipas na altura, não eram federadas, não havia estas burocracias que agora exigem. Um treinador tem de ser de nível 2, é caro para um clube.
A aldeia quer vir ver o jogo ao domingo, ver o jogo da aldeia, não interessa se ganhamos, se perdemos, se estamos na 3.ª ou na 4ª divisão. Nós somos ainda a coletividade e acho que isso não se deve perder. Se as aldeias todas se mantiverem a esse nível, não sonharem só em crescer… Se a federação apostar nestas quartas divisões, no regional, como há o distrital no masculino, acho que tem futuro, porque aí sim, a aldeia ganha. Cada vez mais as pessoas da aldeia vivem na aldeia e participam nas coletividades. Se se apostar nessa área, se o futebol passar por aí é muito mais interessante, é mais bonito.

Qual a beleza do futebol?
É a união, o grupo. Nós temos uma diferença brutal, nós, as mais velhas, temos de ceder. Somos mais velhas e as miúdas mais novas não vão perceber a nossa perspetiva. Apesar de termos razão, temos de ceder porque não vale a pena, já fomos da idade delas. O nosso grupo é tão divergente, pessoas todas diferentes, desde enfermeiras, contabilistas, eu sou gestora. A Carina distribui correio, a Vanessa é da Cruz Vermelha. Somos todas diferentes. 
É giro a união, quando uma está mal, todas se preocupam. Cria-se um grupo que não conhecíamos e, com o tempo, a gente vê-as como nossas filhas. É a união da equipa, a diversidade de pessoas quando a gente entra em campo. E se não houver loucuras, é muito bom. Mesmo perdendo, se jogarmos bem, perdermos com uma equipa boa, ficamos felizes e realizadas.